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O lado B das eleições

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13.02.2026

1. Não é fácil perceber qual será o estado de espírito do presidente da república recentemente eleito. Decorre essa dificuldade da opacidade natural dos espíritos, ruins de serem compreendidos fora dos corpos que os abrigam – e esta é uma advertência pertinente sobre a utilidade da matéria, no rescaldo de várias semanas em que predominaram fantasmas, foram vistos anjos e testemunhadas conversões milagrosas. Mas decorre também e sobretudo da particular habilidade do Dr. António José Seguro em esconder a profundidade do seu pensamento. Estará naturalmente feliz com a dimensão da sua vitória, um estado inevitável para quem adquiriu o hábito de se contentar com pouco. Sentir-se-á confuso, em algum momento, se o atingir a surpresa de ter chegado tão alto e tão longe, surpreendentemente ele, a meio de um carreira trilhada à custa de cargos de secretário e de adjunto a que apenas falta, agora e pela ordem natural das coisas, encimar-se com a glória de qualquer coisa na ONU. Num intervalo mais reflexivo há-de interrogar-se porque mereceu ser escolhido pelo General Eanes, que é um homem sério, e por Catarina Martins; eleito por Paulo Portas, que é um tipo inteligente, e por Paulo Raimundo; votado por Cecília Meireles, uma senhora de espírito brilhante, e por Agir. É possível que dessa reflexão, eventualmente ajudada por alguém que o estime com segundas intenções, resulte concluir que é grande e é bom – e nessa conclusão se conterá todo o triste contrário da grandeza e da bondade.

Para lá de tudo o que interessa ao Dr. Seguro e a todos os que o elegeram, a pátria protagoniza alguns factos bastante mais espantosos do que o Dr. Seguro ele próprio. Raramente num país democrático e desenvolvido – ou seja, Portugal, para que não existam dúvidas de identificação – acontece uma votação tão desequilibrada e tão despida, na aparência, de razões ideológicas.

Em 2021, Marcelo Rebelo de Sousa tinha contado com o voto de 60.7% dos votantes, uma percentagem espantosa depois de ter assinalado um primeiro mandato com vários números de revista. A Covid acrescentara muitos abstencionistas a uma taxa de abstenção que era regularmente crescente desde há 50 anos e atingiu então o seu deplorável máximo de 60.8% dos eleitores. António José Seguro pulverizou esses e todos os melhores registos: recuperou para o voto vária e desaustinada gente, comprimiu a abstenção para menos de 50% e conseguiu 66.8% dos sufrágios, a maior percentagem de eleitores dedicados à admiração de um presidente. O seu distante camarada Mário Soares, com os difíceis 51.2% na segunda volta de 1986, fica remetido por Seguro para um pigmeu do mundo presidencial, poucochinho, sem nervo e apenas muito sofrível na luta que travou contra o fascismo do tempo dele.

É verdade que o Dr. António José Seguro não reuniu 97% dos votos que estariam ao seu alcance na Roménia de outro tempo. Também não se apoiou num pensamento tão sólido que suscitasse a adesão admirada do eleitorado esclarecido ou, pelo menos, a comparência entusiástica das massas populares levadas em autocarros. Não foi tão longe o Dr. Seguro, nem ele nem o eclesial ajuntamento que o elevou à presidência. Mas aproximou-se. E nos resultados da recente eleição encontra-se tudo o que não faz bem à saúde dos países e à prosperidade dos povos: a tolerância da mediocridade, a renúncia da inteligência e a resignação ao pasto.

As eleições de 8 de Fevereiro de 2026 hão-de ficar memoráveis, tal como outras do passado. Não pela vibração democrática de 1986, nem pela sonolência de 2021, mas porque foram um pre-apocalíptico e patético cortejo de penitentes – pela proveniência espúria dos que votaram o novo presidente e pelos propósitos com que se resignaram a fazê-lo.

A frente anti-fascista que elegeu o Dr.Seguro é obscurantista e medieval, replica a sujeição cega a que se entregaram, durante a Covid, as populações devidamente aterrorizadas. As almas........

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