Despeço-me da Terra da Alegria
Em Maio, num mês de Maio como este, mas no ano de 1978, Ruy Belo publicou o seu último livro. Chamou-lhe “Despeço-me da Terra da Alegria”.Ruy Belo tinha 45 anos, aproximara-se perigosamente da perfeição poética e, tal como ele sabia que iria acontecer, morreu 3 meses depois.
Os seus poemas são dos mais límpidos e docemente corrosivos da literatura portuguesa, são claros e dizem exactamente o que querem dizer antes de dizerem tudo o que Ruy Belo quis dizer com eles. Essa razão valeu-lhe a honrosa indiferença dos poetastros do seu tempo e deste tempo – os pequenotes que ainda hoje e cada vez mais aprofundam a incompreensibilidade para se mostrarem profundos, cultivam cumplicidades ressentidas e disfarçam a falta de jeito com angústicas semânticas e portentosas expressões in-significantes. Teria de ser assim num mundo de biscateiros onde a crítica e o ambiente dos cafés mundanos são uma feira de géneros onde cada um dá o seu e aproveita o dos outros. Não faz mal, não foi isso que fez mal a Ruy Belo.
Não sei que nome daria hoje Ruy Belo ao seu último livro. Se continuaria a ser de Alegria a sua amada terra da despedida, se levaria dela a pena e o mesmo largo olhar de agradecimento pela oportunidade de nele ter vivido.
Há uns dias, uma mulher abandonou duas crianças de 3 e 5 anos à beira de uma estrada. Há concerteza casos iguais, mas não piores. Deste, no entanto, sabemos onde aconteceu. Foi aqui perto em Portugal onde tudo é perto, numa terra onde muitas vezes as pessoas passam a caminho do Algarve e que algumas, que abominam o Algarve e as suas criaturas castanhas e oxigenadas, apenas demandam para almoçar choco frito à beira do rio. Sabemos também o nome da mulher, a sua idade e a sua profissão. Conhecemos a sua cara e a sua voz. A mulher era a mãe dos meninos e os meninos acreditam sem limites nas mães. Foi isso que permitiu à mulher tapar-lhes os olhos pequeninos, contar-lhes uma mentira e deixá-los para trás perdidos para que alguma coisa lhes acontecesse – a sorte ou a morte.
O mundo que soube disso não está horrorizado. Está curioso e está palpitante porque não é costume ver-se uma coisa assim. Está atento às televisões porque ainda não faltam uns poucos de testemunhos de especialistas e populares creditados – os clientes ocasionais do mesmo café onde a mulher tomou o pequeno-almoço ou senhoras excitadas que ouviram falar no assunto. O mundo aguarda com ansiedade que os esforços para encontrar uma doença psiquiátrica adequada àquela mulher possam em breve chegar a bom termo. Então, haverá sempre alguém capaz de compreender a infeliz mãe.
De onde vem a crescente tolerância das sociedades face ao horror?
Esta senhora que alegadamente (ou seja: diz-se, pode ser que…) terá exposto (ou seja: abandonado à possibilidade da morte) dois filhos com 3 e 5 anos continua a ser designada por mãe e apresentada como sujeito de uma imperiosa dúvida legal que a protege do nojo absoluto. Nesse respeito pelo instituto maternal, que parece ainda merecer, assim como em todo o palavreado que rodeia o seu crime (alegado crime…) reconhece-se uma ideia subversiva que foi plasmada na cabeça das pessoas: não........
