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O Mare Clausum e o “Império americano”

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02.04.2026

Nota prévia: A 22 de junho de 2025, escrevi este artigo – Pode uma guerra regional abalar a Ordem Energética Mundial? – onde reflecti sobre as consequências da operação Rising Lion, afirmando que continuávamos num mundo unipolar com os EUA como única superpotência, com quem nem a China, nem a Rússia eram capazes de rivalizar. Esta análise de 6 pontos aborda as eventuais consequências do presente conflito no Golfo Pérsico.

1 Donald Trump é um homem que vive no passado, que não acredita no comércio livre e que revela tendências imperialistas. Esta afirmação é excessiva? Bem, quando observamos o modo como ele fala de William McKinley, como usa as tarifas e como se refere à Gronelândia, ao Canadá e ao México, a apreciação é sustentável.

A referência a McKinley não é inocente. Trump não invoca um símbolo de uma América industrial, protegida por tarifas, típica de um mundo inquestionavelmente diferente do actual. Ao elogiar McKinley, Trump mostra uma nostalgia política clara: parece preferir uma ideia de grandeza nacional associada ao fim do século XIX, quando a economia americana era menos dependente de cadeias globais de produção e o protecionismo era visto como uma ferramenta legítima de afirmação. O problema é que essa imagem é, em grande medida, uma reconstrução seletiva do passado. Ela ignora o facto de que a economia contemporânea funciona de outra forma, com interdependências profundas e custos elevados quando se levantam barreiras comerciais de forma indiscriminada.

É neste ponto que entra a questão do comércio livre. Trump apresenta-se muitas vezes como um negociador duro, mas a sua acção política aproxima-se mais do protecionismo agressivo do que de qualquer defesa consistente da concorrência aberta. As tarifas que implementou – sobre aço, alumínio, e depois sobre vários parceiros comerciais – evidenciam uma visão do comércio como campo de conflito e não como sistema de benefícios mútuos. Em vez de apostar em regras previsíveis e em integração económica, Trump prefere tarifas como arma política: penaliza, pressiona e obriga os outros a ceder. Isso não significa apenas rejeição do comércio livre; significa também uma recusa de aceitar que os EUA possam ganhar mais através de cooperação do que através de coerção.

Finalmente, as suas declarações sobre a Gronelândia, o Canadá e o México reforçam ainda mais a leitura imperial. Quando fala da Gronelândia como objecto de compra ou controlo, Trump trata um território autónomo como se fosse um activo negociável. Quando se refere ao Canadá em termos de subordinação ou dependência, rompe com a ideia de parceria entre Estados soberanos e sugere uma hierarquia onde os EUA ocupam o topo. E quando usa o México como alvo constante de pressão económica e simbólica, mistura comércio, fronteiras e segurança numa lógica de intimidação. Em todos estes casos, o padrão é semelhante: Trump não fala apenas de interesse nacional; fala como se os EUA tivessem o direito de impor vontade, redefinir fronteiras e transformar vizinhos em alvos de pressão estratégica.

Como tal, a afirmação faz sentido. Trump não parece apenas um nacionalista económico. Também parece ser alguém preso a uma visão antiga de poder, em que a grandeza americana se mede por tarifas, domínio territorial e capacidade de forçar outros a obedecer. Essa combinação de nostalgia histórica, protecionismo e linguagem de expansão torna plausível a leitura de que o seu projeto político tem traços imperialistas. Ora, sendo Trump um mercantilista nostálgico convém recordar problemáticas do passado e as suas consequências para impérios de outrora.

2 A controvérsia entre Mare Clausum e Mare Liberum marcou profundamente a formação da ordem marítima moderna. O mare clausum (“mar fechado”) defendia que um Estado podia reivindicar soberania exclusiva sobre determinadas áreas marítimas, controlando rotas, impondo restrições e protegendo monopólios comerciais. Esta doutrina, associada sobretudo a John Selden,........

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