Alterações Climáticas: será a culpa das vacas?
Há poucos temas que revelem tão bem a confusão que domina o debate ambiental actual como a questão das vacas.
Durante anos ouvimos que o carbono e o metano emitidos pelos ruminantes são uma ameaça ao clima. O argumento espalhou-se por meios de comunicação, campanhas institucionais, universidades e políticas públicas. Em alguns casos chegou-se ao ponto de reduzir ou desencorajar o consumo de carne em cantinas e espaços públicos, como se essa decisão representasse um contributo significativo para salvar o planeta.
Mas quem trabalha diariamente na paisagem dificilmente consegue deixar de fazer uma pergunta simples:
Será mesmo a culpa das vacas?
Ou estaremos perante mais um exemplo de um problema complexo reduzido a um slogan conveniente?
A questão não é menor, porque quando o debate público se concentra no “pum das vacas”, deixamos de falar de quase tudo o resto.
Deixamos de falar da erosão que todos os anos remove milhares de toneladas de solo fértil. Deixamos de falar das linhas de água degradadas.
Deixamos de falar das galerias ripícolas destruídas.
Deixamos de falar dos aquíferos sobre-explorados.
Deixamos de falar dos pesticidas e fertilizantes sintéticos.
Deixamos de falar da perda acelerada de biodiversidade.
Deixamos de falar da simplificação extrema da paisagem.
E deixamos, sobretudo, de falar do modelo agrícola e florestal dominante que produziu muitos destes problemas.
Porque existe uma realidade que raramente entra nas manchetes: não existe apenas uma agricultura. Existem muitas agriculturas, e a diferença entre elas é enorme.
Uma exploração pecuária industrial em confinamento permanente pouco tem em comum com um sistema silvopastoril extensivo. E um sistema silvopastoril extensivo pouco tem em comum com um sistema em modo de gestão holística do pasto.
Uma monocultura intensiva de milhares de hectares pouco tem em comum com um sistema agroflorestal diversificado. Uma paisagem desenhada apenas para maximizar produção a curto prazo pouco tem em comum com uma paisagem desenhada para funcionar durante gerações. No entanto, o debate público continua frequentemente a colocar tudo no mesmo saco. É uma simplificação cómoda mas perigosa porque esconde a verdadeira origem de muitos dos problemas ambientais que enfrentamos.
Durante décadas........
