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Eu e o Lobo Antunes

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08.03.2026

E comigo, como foi o Lobo Antunes? Não me recordo de todos os detalhes mas peguei no “O Conhecimento do Inferno” da minha mãe. Teria 18? Não tenho a certeza. Mas bateu-me forte. A guerra, o mundo descrito em trauma, a falta de esperança. Para um jovenzinho como era, um universo assim parece mais credível do que era o anterior. Creio que nunca tentei propriamente imitá-lo mas que foi irreversível em mim pensar que o mundo da literatura exigia gente à prova de Lobo Antunes.

Seguiu-se “A Explicação dos Pássaros”, “O Manual dos Inquisidores” e as crónicas que seguia religiosamente na imprensa. Tornou-se o meu escritor português preferido. O Saramago também me tinha batido forte mas o Lobo Antunes parecia-me uma fonte mais intensa e estável daquele existencialismo pop que aos vinte anos confundimos com deixar de ser puto. Curiosamente, foi também por aqui que a paixão começou a desvanecer. Porquê?

Foi sobretudo a falta de humor que me fez afastar do Lobo Antunes. A falta de humor e o sentimento de eleição literária. O que é isso do sentimento de eleição literária? O Lobo Antunes falava de textos que escrevia por falta de arbítrio: não era ele que escolhia escrever os textos mas os textos que escolhiam ser escritos por ele. Ora, curiosamente sou calvinista e não acredito no livre arbítrio. Mas tenho dificuldades com calvinismos sem Deus. Soam-me sempre a manha.

Lobo Antunes falava como um calvinista sem Deus. Ou melhor, como um texto-calvinista. Ortodoxo que tento ser, guardo pouca paciência para tanto descuido com fontes primárias. Passou a irritar-me o zelo religioso com a literatura que, não por acaso, condizia com uma certa zanga com o transcendente. Deus aparecia na cena mas sempre muito mais gasoso do que a certeza da eleição literária. Se formos sinceros, esta não é uma característica de Lobo Antunes mas global nos escritores portugueses.

Os escritores portugueses, mesmo as gerações mais recentes do que a do Lobo Antunes, transportam ainda o complexo de serem escolhidos pelas Letras com L grande. Encaixa aos artistas portugueses esta noção de eleição existencial mas com o destino no lugar de Deus. Acho insuportável. Fala-se de escrever como uma sina que nos destaca dos outros, típica de uma sociedade clerical que persiste mesmo quando o teocídio já foi consumado. Até o fatalismo usado não disfarça a mania das grandezas.

Mas quero falar bem do Lobo Antunes. No final de contas, sinto que perdi um dos meus escritores. Tenho de o voltar a ler agora, com outros olhos. Alguma da ambiguidade que sinto já foi tratada noutro texto aqui no Observador, do João Pedro Vala (também me bateu forte o disco que escreveu com o Vitorino!). Uma vez tentei escrever para esta coluna um texto acerca dos meus Domingos à tarde. Não consegui e desisti. Ora, mais tarde leio o Lobo Antunes dizer que “os Domingos à tarde eram uma tristeza, uma angústia… Não era bem tristeza, era um aperto. Não sei explicar isto.” Mas era isto mesmo.

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