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Entre o desespero e a esperança: relato de uma iraniana

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Sou iraniana e tenho família em Teerão. Nos últimos meses tenho falado diariamente com a minha prima, que vive ao lado do gabinete do Líder Supremo da República Islâmica, Ali Khamenei. Desde os acontecimentos de 8 e 9 de janeiro — quando centenas de milhares de iranianos saíram às ruas após o apelo a manifestações nacionais de Reza Pahlavi e onde morreram, de acordo com vários relatos, 36.500 manifestantes — não houve um único dia em que ela não me enviasse uma mensagem de voz em lágrimas. Em todas as conversas sentia-se o mesmo: sufoco, desespero e uma profunda depressão coletiva.

Quando se vive num país onde a entidade que deveria proteger os cidadãos aponta armas contra eles, dispara sobre manifestantes e reprime violentamente qualquer forma de dissidência, instala-se um sentimento absoluto de abandono. Multiplicaram-se relatos de detenções arbitrárias, violência sexual, feridos impedidos de receber tratamento adequado, execuções e um uso sistemático da força para esmagar qualquer oposição. Perante isso, o cidadão comum sente-se isolado, encurralado e sem saída.

Todos os dias ela me perguntava: “Sanaz, porque é que ainda não atacaram? Porque é que a comunidade internacional não nos acode? Não veem que nos cortaram a eletricidade, desligaram a internet e mataram quem conseguiram? O que são estas negociações? Somos uma moeda de troca?” Eu não sabia o que lhe responder.

É difícil explicar a quem nunca viveu sob um regime repressivo o que significa chegar ao ponto de desejar uma intervenção externa. Mas essa é a realidade de muitos iranianos: a esperança de que forças externas neutralizem as estruturas militares do regime e abram espaço para uma mudança interna. Durante décadas, o povo iraniano ergueu-se repetidamente para exigir um país secular, onde as mulheres sejam livres e onde amar, cantar ou dançar não seja motivo de perseguição.

Esta manhã acordei com notícias de ataques dos Estados Unidos e de Israel em território iraniano. Ainda é cedo para perceber a dimensão e as consequências destes acontecimentos. Abri imediatamente o Telegram. Tinha uma mensagem de voz da minha prima. Pela primeira vez em meses, não chorava. Gritava de felicidade, ria-se, dizia: “Sanaz, atacaram! É agora!” Na sua voz já não havia desespero, apenas esperança. Despediu-se dizendo: “Esta pode ser a última mensagem que recebes. Se eu morrer, diz a todos que morri feliz, no caminho da liberdade.”

Pouco depois, a internet foi novamente cortada. As minhas mensagens já não chegam. O regime voltou a colocar o país no escuro, limitando comunicações e informação. Antes do corte total, circularam alguns vídeos nas redes: pessoas nas ruas a buzinar, a rir, a dançar, a gritar “liberdade”. Não sei quanto tempo essa esperança resistirá. Não sei o que acontecerá nas próximas horas.

O que sei é que a história do Irão — uma história com mais de três mil anos — sempre foi marcada por invasões, quedas e renascimentos. Nos últimos 47 anos, o país viveu sob um regime teocrático que muitos consideram uma ocupação externa. Mas a identidade iraniana é anterior e maior do que qualquer regime.

A história está a ser escrita em tempo real. E, neste momento, milhões de iranianos aguardam entre o medo e a esperança.

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