menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Lisboa não dorme. E por isso adoece

6 0
yesterday

Há muito que quem vive em Lisboa sente, mais do que ouve, o peso do ruído. O relatório do projeto RuídoLX 2025, promovido pela Vizinhos em Lisboa e que tive a honra de conduzir e onde a participação de dezenas de voluntários que percorreram comigo em várias “expedições” muitas ruas da cidade, confirma com números aquilo que há anos é perceptível em cada janela aberta: Lisboa é hoje uma cidade que raramente dorme: e que, ao não dormir, adoece.

As medições feitas nestas saídas indicam níveis médios de ruído superiores a 75 dB(A), valores que ultrapassam de forma sistemática os limites definidos pelo Regulamento Geral do Ruído (DL n.º 9/2007) e as recomendações da Organização Mundial da Saúde. Pior: mais de três quartos das medições nocturnas excedem o máximo legal. A cidade, mesmo quando devia descansar, continua a vibrar com o trânsito, a recolha de lixo, as motas, as esplanadas, os bares com amplificação de som para rua e as multidões gritantes que os rodeiam e, claro, os aviões que a sobrevoam cada vez com mais frequência (e que a ANA ainda quer aumentar mais).

O relatório que ajudei a elaborar e que está ao alcance de todos os que o quiserem ler não é um lamento estéril: é uma base técnica sólida para a acção política por parte de quem “pode” e “manda”: Mostra que o ruído urbano não é inevitável. É mensurável, gerível e, sobretudo, corrigível com medidas de bom senso. Propõe, por exemplo, a substituição das frotas municipais e de transporte público por veículos elétricos, maior fiscalização ao ruído de bares, navios de cruzeiro e esplanadas, a proibição de maquinaria ruidosa à noite, o reforço da arborização como barreira acústica, e a extensão da uma rede municipal de sonómetros automáticos, com dados públicos e abertos assim indicadores de cumprimento do RGR por freguesia. Tudo isto é possível sem reinventar a cidade: basta começar a geri-la com consciência acústica.

Enquanto cidadão, vejo neste relatório uma oportunidade de mudança cultural. Lisboa habituou-se a tratar o ruído como o preço inevitável da “vida urbana” e do turismo. Mas uma cidade viva não precisa ser ensurdecedora. A convivência, o lazer e a mobilidade podem e, aliás, devem coexistir com o direito ao descanso.

É reconfortante ver que este estudo nasceu da cidadania ativa, com medições feitas por moradores que nos chamaram a cada vaga de medições (por isso há zonas que não foram cobertas: ninguém nos chamou), e que propõe soluções práticas e equilibradas: não criminaliza o ruído, mas convida à responsabilidade partilhada: de quem planeia, de quem fiscaliza e de quem usa a cidade. Lisboa tem técnicos, recursos e conhecimento para ser referência europeia também nesta matéria.

Este projeto RuídoLX 2025 é, por isso, mais do que um relatório. É um apelo à maturidade urbana. E talvez o verdadeiro desafio que coloca à Câmara Municipal e às Juntas de Freguesia seja este: deixar de ver o silêncio como ausência de vida e começar a reconhecê-lo como qualidade de vida.

Lisboa pode continuar a ser vibrante e turística: mas é já tempo de aprender a fazê-lo com menos decibéis e mais harmonia na coexistência entre uma cidade para ser vivida e uma cidade para ser habitada.

Receba um alerta sempre que Rui Martins publique um novo artigo.


© Observador