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O Acidente da Celeste

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26.04.2026

No dia 25 de Abril de 1974, Celeste Caeiro saiu de casa para ir trabalhar ao SIR, um restaurante self-service instalado no Edifício Franjinhas, à Rua Braamcamp, que fazia um ano de existência e tinha cravos para oferecer aos clientes. O restaurante não abriu e o patrão, sem melhor destino para as flores, pediu aos funcionários que as levassem para casa. Celeste saiu com o ramo na mão, apanhou o metro até ao Rossio e subiu ao Chiado para perceber o que se passava. Aí, aproximou-se de uma coluna militar; um soldado pediu-lhe um cigarro. Celeste não fumava, nunca fumara. Por não ter cigarro para dar, ofereceu-lhe, em compensação, um cravo. O soldado enfiou-o no cano da espingarda. A imagem correu mundo e deu nome à revolução.

Importa fixar a ordem das coisas, porque é inversa à que mais tarde ficaria na fotografia: primeiro o acidente, depois o símbolo. Se o restaurante tivesse aberto naquela manhã, os cravos teriam ido para as mesas e depois para o caixote, como costuma acontecer aos cravos dos restaurantes. Se Celeste fumasse, teria no bolso um cigarro para dar e não teria precisado de procurar outra coisa que oferecer. Se o soldado, com a flor na mão e a espingarda na outra, a tivesse devolvido ou deixado cair, a revolução que hoje se ensina nos livros teria outro nome, outra cor e, provavelmente, menos fotogenia. As coisas importantes dependem, quase sempre, de coisas sem importância nenhuma.

Maquiavel, que tinha sobre estes assuntos uma opinião formada, escrevia em O Príncipe que a Fortuna – o acaso – governa metade das nossas ações, deixando à virtù (qualquer coisa entre o engenho e a ousadia) a outra metade. A proporção era, admitia, uma estimativa grosseira; nunca se conseguiu medir a contribuição exata de cada uma. Mas a ideia é que nenhum gesto histórico, por mais planeado, se faz sem a cumplicidade do acaso, e nenhum acaso se torna história sem alguém disponível para o ocupar. Num dia em que tudo devia correr mal, correu bem, porque havia cravos por distribuir, uma funcionária não fumadora com um ramo na mão e um soldado que, pedindo cigarro, recebeu uma flor e lhe soube dar destino.

O que interessa nesta distribuição tão desigual de méritos é o efeito retrospetivo. Quando nos contam a história, ela aparece como sequência deliberada: os cravos estavam ali porque tinham de estar, o soldado pegou na flor porque era esse o seu papel no argumento. Apagamos silenciosamente a Fortuna e pomos a inevitabilidade no lugar. Na hora, porém, Celeste estava só a tentar resolver um pequeno embaraço, não ter cigarro para dar a quem o pedia, e o soldado estava só a arranjar lugar para uma flor inesperada, com a espingarda à mão. Nenhum dos dois pensou que estaria a fundar uma iconografia.

É por isso, admito, que desconfio dos grandes gestos planeados como tais. São, muitas vezes, tentativas de reproduzir em condições laboratoriais aquilo que originalmente aconteceu por acidente, e o resultado tem o sabor das flores de plástico, que copiam a forma das verdadeiras mas não aguentam o perfume. As revoluções boas (e mesmo as más) não se escrevem em agendas. Aparecem nos intervalos do plano, entre uma ordem mal dada e outra pior cumprida.

Por isto mesmo, 52 anos depois, desconfio também da maneira como se fala hoje em «continuar Abril». A frase aparece em comícios, cartazes, colunas de opinião, declarações solenes e vem quase sempre acompanhada de propostas que exigem heroísmo programado. Mas Abril não foi feito de heroísmo programado. Foi feito, em larga medida, de gestos banais que ninguém reconheceu como históricos enquanto os praticava. Celeste saiu de casa para ir trabalhar. Os capitães saíram dos quartéis para cumprir uma ordem. A História veio depois, colocar-se em cima.

Continuar Abril, se é que a expressão querer dizer alguma coisa, deve ser menos ambicioso e mais trabalhoso. Continuar a praticar os gestos pequenos que o tornaram possível e que ninguém filmará nem transformará em fotografia. Celeste morreu em 2024, com 91 anos, entre homenagens que lhe chegaram com meio século de atraso. Viveu em condições modestas e, até ao fim, resistiu à ideia de protagonismo; em entrevistas dizia que um cravo se oferece a qualquer pessoa, e que nunca tinha imaginado que aquele gesto pudesse significar alguma coisa. Fez o que estava à sua frente para fazer. Do resto encarregou-se Maquiavel e, com a sua ajuda, nós.

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