Vai ficar tudo bem
O assunto do momento é a “cilada” do malvado Trump ao pobre Zelensky na Sala Oval. Escrevo “cilada” entre aspas porque, como tal, nunca existiu. Isto é algo que qualquer pessoa com conhecimentos básicos de inglês poderia facilmente deduzir, ou dificilmente suspeitar, se observasse na íntegra os 50 minutos que durou a reunião. Esse não é, no entanto, o motivo deste artigo. As consequências do encontro seriam as mesmas com ou sem cilada. Mas, serve esta introdução para chamar a atenção para uma situação recorrente. A inabilidade da generalidade dos meios de comunicação para transmitir informações minimizando os juízos de valor, grande parte deles preconcebidos. O serviço que os meios de comunicação deviam prestar, a sua missão por assim dizer, é intermediar entre os factos observados e o receptor, fazendo-lhe chegar aquilo que é mais relevante para que este forme uma opinião. Por esse motivo se lhes chama media. Numa era em que aos receptores lhes é possível, com um pouco de trabalho, ir diretamente à fonte, é compreensível que o jornalismo esteja em crise, mas não é que não esteja a cumprir a sua função. Ou se calhar a sua função é outra, a de fazer propaganda, ou click bait.
Como este não é o assunto principal, mas não quero que fique no ar, deixo aqui um artigo escrito por Rachel Bade no site Politico (Zelenskyy Forgot the First Rule of Dealing With Trump), para quem queira perceber melhor o sucedido na Sala Oval. Escolho este por motivos óbvios: Bade não é, nem de perto nem de longe, admiradora de Trump. Escreveu um livro onde acusa os políticos em Washington, tanto democratas como republicanos, de deixar Trump escapar a um impeachment que, para ela, era mais que merecido. Adicionalmente, o site Politico, onde o artigo foi publicado, foi recentemente acusado pelo pela Administração Trump de ser um receptor encoberto de fundos públicos para fazer propaganda para o Partido Democrata. Rachel Bade e o Politico estão acima de qualquer suspeita de querer agradar a Trump. Nesse caso, porque é que Bade afirma que não houve uma cilada? Porque, ao contrário da maioria dos especialistas e comentadores, ela falou com as fontes, com as pessoas presentes na reunião, e estas disseram o óbvio para quem viu os 50 minutos: que o staff da Casa Branca trabalhou 5 dias naquele acordo e a preparar aquela reunião e foi Zelensky quem saiu do guião. Se fez bem ou mal, cada um que julgue por si, mas o que não aconteceu em nenhum momento foi uma “cilada” premeditada de dois gorilas.
Em minha opinião, muita desta preocupação com as más-formas serviu para evitar falar no conteúdo da conferência que é o que verdadeiramente importa. O que se passou em frente às câmaras é algo que sucede muitas vezes à porta fechada. Foi uma vergonha? A quem lhe importa? Assim pudemos perceber grande parte do que está em jogo. Quantas vezes foi dada ao público essa oportunidade? Criticar as formas é dizer às pessoas: vocês não tinham o direito de ver isto. Eu percebo que a........
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