menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Baixa produtividade: o bloqueio que impede Portugal

5 0
17.04.2026

Portugal cresce, mas cresce abaixo do seu potencial.

A estabilidade regressou ao discurso económico. Há emprego, há alguma previsibilidade e existe, até uma percepção externa mais favorável. Ainda assim, importa não confundir estabilidade com progresso. Entre estabilizar e avançar há uma diferença estrutural, é precisamente aí que o país permanece bloqueado.

O mais recente relatório da OCDE volta a colocar o foco no ponto essencial: a baixa produtividade.

Este é, de facto, o problema central da economia portuguesa. Produzimos menos valor por hora trabalhada do que os nossos parceiros europeus e, enquanto essa realidade persistir, todas as restantes limitações serão apenas consequência: salários mais baixos, crescimento insuficiente e uma convergência que tarda em concretizar-se.

A produtividade não é um conceito técnico distante; é o elemento que determina a capacidade de um país criar riqueza. Sem produtividade, o crescimento é inevitavelmente limitado e, com o tempo, perde relevância.

O diagnóstico não é novo. Há anos que se repete com uma consistência que deveria, por si só, obrigar à ação. O que falta já não é compreensão do problema, mas capacidade de execução.

O relatório da OCDE organiza este diagnóstico em várias dimensões que, analisadas em conjunto, revelam a natureza estrutural do desafio.

Desde logo, a tecnologia e a inovação. Num contexto em que a inteligência artificial redefine cadeias de valor e modelos de negócio, a adoção tecnológica em Portugal continua desigual, em muitos casos, tardia. Não basta investir, é necessário transformar, de forma efetiva, processos, modelos organizacionais e práticas de gestão.

Segue-se a questão do talento, hoje indissociável do acesso à habitação. Uma economia que não consegue fixar pessoas dificilmente crescerá de forma sustentada. O problema deixou de ser apenas social, tornou-se económico. Sem talento, não há produtividade.

A fiscalidade constitui outro fator crítico. Um sistema complexo, pesado e imprevisível penaliza o trabalho, desincentiva o investimento e limita o crescimento das empresas. A simplificação não é um detalhe técnico, é uma condição necessária para a eficiência económica.

O mercado de trabalho enfrenta, por sua vez, uma pressão demográfica evidente. Com menos pessoas disponíveis, o desafio deixa de ser apenas criar emprego, passa a ser valorizar cada trabalhador. Reter talento, atrair competências e integrar melhor trabalhadores seniores torna-se, assim, essencial.

Por fim, o Estado. A burocracia, a lentidão da justiça e a imprevisibilidade regulatória traduzem-se em custos reais para a economia, ainda que muitas vezes invisíveis. Um Estado ineficiente não é neutro; condiciona decisões, atrasa investimento e limita o crescimento.

Nenhuma destas dimensões é nova. E é precisamente essa repetição que deve preocupar.

Quando o diagnóstico se mantém constante ao longo do tempo, o problema deixa de ser técnico e passa a ser político. É aqui que o debate se torna mais exigente. Aumentar a produtividade não depende apenas de boas políticas, depende da capacidade de as sustentar no tempo. Exige consenso político em torno de matérias essenciais como fiscalidade, justiça, mercado de trabalho e investimento. Exige estabilidade regulatória e previsibilidade nas decisões. Exige, no fundo, a maturidade coletiva de tratar a competitividade como um desígnio nacional, e não como um campo de disputa conjuntural.

Sem esse consenso, as reformas tornam-se intermitentes. E reformas intermitentes raramente produzem resultados estruturais.

Aumentar a produtividade não resulta de uma medida isolada, nem de um ciclo governativo. Exige coerência, continuidade e prioridade. Exige criar condições para que as empresas cresçam, invistam e inovem. Exige, acima de tudo, alinhar incentivos com a criação de valor.

Portugal não precisa de mais relatórios. Precisa de decisões que resistam ao tempo e de políticas que não mudem a cada ciclo.

Porque o essencial já está identificado.

A questão, agora, não é saber o que fazer.

É saber se estamos, finalmente, dispostos a fazê-lo.

Receba um alerta sempre que Ramiro Brito publique um novo artigo.


© Observador