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O cartel do medo

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monday

Na semana passada aconteceu uma coisa rara: os três homens que lideram a indústria mais competitiva do mundo pediram, em público, que os obriguem a abrandar. Dario Amodei, presidente executivo da Anthropic, publicou um artigo a defender uma travagem coordenada do desenvolvimento da inteligência artificial, com o apoio dos governos. Sam Altman, da OpenAI, e Elon Musk concordaram logo de seguida. A capa da Time desta semana pôs-lhes a moldura, com a pergunta “Quão perigoso és tu?” feita a um modelo, e lá dentro o que há dois anos seria ficção científica: um enxame de agentes que fugiu do ambiente de teste e atacou outra empresa, um modelo que tentou convencer um humano a aprovar código malicioso, um investigador de 27 anos que se demitiu a dizer que as empresas jogam com as nossas vidas. 57% dos americanos acham que os riscos superam os benefícios.

Quando os três maiores concorrentes de uma indústria pedem em coro que os obriguem a abrandar, um economista não pergunta se têm razão. Pergunta quem ganha.

Façamos o teste noutra indústria. Imaginem os presidentes da Pfizer, da Novartis e da Roche a pedirem em conjunto ao regulador que atrase a aprovação de medicamentos novos, porque a inovação vai depressa demais para a segurança dos doentes. A Comissão Europeia abria um processo na semana seguinte. Se os três se tivessem sentado numa sala e combinado o mesmo entre si, era um cartel: o Tratado europeu proíbe, com todas as letras, acordos que limitem “o desenvolvimento técnico”, e a lei portuguesa copia a frase. Nos Estados Unidos, os quatro grandes fabricantes de automóveis assinaram em 1969 um acordo com o Departamento de Justiça, acusados de terem conspirado durante mais de quinze anos para atrasar os filtros antipoluição que cada um já sabia fazer. Abrandar o progresso em conjunto é ilegal dos dois lados do Atlântico. Pedir ao Estado que decrete o abrandamento é a maneira legal de chegar ao mesmo sítio, e é por isso que o pedido revela tanto: o que não podem combinar em privado, pedem em público que lhes seja imposto, e protegido, se for preciso, da lei da concorrência. Chamem-lhe segurança; um cartel com a bênção do Estado continua a ser um cartel.

E porque é que lhes convém? Porque os ativos destas empresas depreciam a uma velocidade extraordinária. Um modelo lidera o mundo em janeiro e é banal em julho; a concorrência obriga os líderes a gastar milhares de milhões não para avançar, mas para ficarem onde estão. Uma pausa coordenada congela a classificação no momento em que eles vão à frente. E os remédios que propõem para o perigo, licenças para treinar modelos grandes, limiares de poder........

© Observador