Aldo Leopold e a sublimação da ética
A investigação bioética não é, como sabemos, redutível aos domínios da medicina. Muito antes de esta área disciplinar ser aplicada à esfera da saúde humana, o teólogo Paul Fritz Jahr formulou, em 1927, o termo “bioética” para preconizar um compromisso ético alicerçado no respeito por todos os seres vivos. Mais de quarenta anos depois, em 1970, o bioquímico Van Rensselaer Potter viria não só sublinhar esta necessidade, mas ampliá-la, acopulando ao compromisso ético a preocupação com o equilíbrio ambiental, o que contribuiu para o avolumamento do escopo investigativo da bioética. A teorização de Potter, tal como assumido pelo próprio, edificou-se sob a influência de Aldo Leopold (1887-1948). Formado em Engenharia Florestal pela Universidade de Yale, Leopold foi (e continua a ser) uma figura determinante na história do conservacionismo, sendo conhecido no meio académico por ter projetado uma primorosa articulação entre a empiricidade científica e a sensibilidade poética. Antes de aflorarmos, em traços gerais, os pontos axiais da filosofia ecológica deste autor, será conveniente realizar primeiro um pequeno périplo introdutório.
No plano da bioética ambiental existem, grosso modo, duas linhas reflexivas predominantes: a perspetiva ecocêntrica, que segue uma visão holística erigida em consonância com a noção de que o nosso planeta é um lar comum; e a perspetiva biocêntrica, que se preocupa essencialmente com as diversas formas de vida. Importa entender que a bioética ambiental surge com o intuito de reverter a mundividência antropocêntrica que monopolizou toda a historiografia ética. O antropocentrismo revela a sua temeridade na própria assunção de que a........
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