Presidenciais: e agora?
1 Dois terços dos eleitores que votaram num candidato presidencial, votaram em António José Seguro. Não por serem socialistas, mas por serem moderados e defensores da democracia liberal e do essencial do nosso regime constitucional que estabeleceu um modelo que alguns chamam de semi-presidencialista. Seguro passou à segunda volta com muitos dos votos úteis à esquerda, um voto que penalizou sobretudo Jorge Pinto. Ganhou-a folgadamente, com muitos votos úteis de quem, à esquerda ou à direita, não se revê na ilusão prometida por Ventura de acabar com a corrupção em Portugal, e que o país regressaria ao ideário de Deus, Pátria, Família (“tradicional”) e Autoridade.
Seguro está de parabéns, e dedicar-lhe-ei uma crónica, mas a de hoje aborda dois outros temas que me parecem essenciais.
O primeiro, é tentar perceber a votação crescente, e muito significativa, em André Ventura, sobretudo se tivermos memória do resultado do Chega em 2019, há apenas seis anos, quando elegeu apenas um deputado na Assembleia da República. A tendência de votação em partidos de direita mais radicais é generalizada no espaço europeu. Ventura até chegou tarde a uma tendência que é generalizada, de há duas décadas para cá, com a afirmação de vários líderes carismáticos como Meloni (Itália), Le Pen (França), Abascal (Espanha), Wilders (Holanda), Orbán (Hungria) e vários líderes da AfD (Alemanha). Desde a crise financeira de 2008 que estes países têm sofrido políticas de austeridade ou de forte contenção orçamental, têm registado níveis de crescimento económico fraco, alguns apresentam mesmo uma situação bastante grave nas finanças públicas (caso de Itália e França).
Baixos salários, impostos elevados, progressão da idade da reforma, para responder ao envelhecimento da população e aumento das desigualdades trouxeram grande descontentamento social. Aumentou a proporção dos working poors e dos “deserdados” da globalização capitalista. Acresce a crise dos refugiados, sobretudo em 2015, que trouxe para a Europa mais de um milhão de refugiados só nesse ano, provindos de países em conflito, em particular, da Síria,........
