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Hipotenusa e redenção da Av. das Forças Armadas

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19.01.2025

Avenida das Forças Armadas, hora de ponta, trânsito compacto e imóvel. Ao meu lado, um autocarro. À janela de um dos bancos traseiros, um velho e uma criança. Avô e neto talvez. É muito pequeno, o menino, e o ancião segura-o com ambos os braços contra o peito: parece uma árvore que abriga uma criança, e esta uma pequena criatura que se desprendeu do tronco – uma folha ou um pequeno fruto que brota dos ramos, aqueles umbrosos lugares de mistério que abrigam os ninhos.

Vêm-me à memória as minhas investidas infantis em busca de ninhos, a vontade de espreitar para aquele lugar escondido onde a vida começa. Os ovinhos delicados e perfeitos, quase sempre salpicados, para se camuflarem. Não se lhes devia tocar, dizia-se, porque as mães os enjeitavam e já não os chocavam. Mas era quase impossível resistir à vontade de segurá-los nas mãos em concha, sentir o fascínio da vida que ocultavam, o mistério da sua fragilidade.

O encanto por tudo quanto é delicado, débil e minúsculo é antigo e perene, talvez por ser aí que escutamos o pulsar daquilo que começa. O enlevo da fragilidade é o melancólico mistério da beleza, privilégio daquilo que nasce e tem de morrer – as mãos e os frutos, a esfera e o cubo, tudo quanto se aperta contra o peito, e a geometria mais íntima da sua luz.

Quando o tirano Polícrates decidiu expulsar Pitágoras de Samos, os seus discípulos mais íntimos tinham já planeado uma fuga nocturna para Crotona, onde haviam sido lançadas as bases de uma escola. Ele, que tanto odiava as máscaras que vira no Egipto entre os fiéis de Anúbis, partiu para o exílio já depois da meia-noite com a cabeça coberta por um manto trácio e montado num cavalo velho. Tinha os braços cruzados sobre o peito e a respiração era calma.........

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