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Eros e uma cavalgada em Nínive

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26.01.2025

O corpo do amado é matéria que transcende a matéria: olhos, pele, lábios, mãos, barriga, pés, hálito, ainda que se nos eleve sempre muito para lá desses olhos e dessa pele. É o invisível que se oferece no visível, enquanto presença e ausência ao mesmo tempo. Eros não é nudez dos seios, mas seios visíveis por trás de um véu. O erótico é a nudez que se mostra e oculta. É a intermitência que é erótica, a da pele que cintila entre duas peças de roupa, entre dois limites. A relação com a pessoa amada é erótica porque se oculta e se mostra, sem que essa dialética possa ser superada. Na luz plena ou na absoluta escuridão, eros não pode manifestar-se. Existe erotismo porque existe sombra.

Na manhã em que Paul-Émile Botta descobriu, na cidade de Nínive, aquilo que restava da grande biblioteca de Assurbanipal chovia suavemente e a terra exalava um manso odor a nardo. Sob o pó e a areia jaziam enterradas, embora ainda legíveis, algumas das tabuinhas que narravam as guerras entre deuses e homens. Coisa pouca para um local que chegou a albergar milhares e milhares de documentos de argila cozida. As línguas que narravam prodígios animais; que evocavam o estio dos pássaros em gaiolas e falavam da farmacopeia nativa e da vida íntima de certos planetas eram o acádio e o sumério. Na confecção destes suportes de terracota, a cosmologia encontrava-se invertida, pois nessa mistura intervinha primeiro a água e o amassado de barro, e apenas depois o fogo, após o trabalho com as canas de impressão. O fogo que fixava a cocção daquilo que viria a chamar-se escrita cuneiforme era, dependendo da circunstância, o simples calor do sol do meio-dia ou o dos fornos do pão. Que as tabuinhas escritas e o pão se unissem e apartassem em momentos diferentes recordou a........

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