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Colapso epistémico: qualquer mentira parece verdadeirra

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23.07.2026

A inteligência artificial pode não destruir a verdade. Pode tornar impossível demonstrá-la.

Durante vários séculos, a humanidade lutou pelo acesso à informação.

A invenção da imprensa democratizou o conhecimento. A alfabetização ampliou a participação cívica. A Internet colocou uma quantidade de informação sem precedentes à distância de um clique.

Seria, por isso, razoável imaginar que a verdade nunca esteve tão acessível.

Porém, talvez estejamos prestes a descobrir precisamente o contrário.

Imagine um mundo onde fotografias, vídeos, áudios e documentos possam ser produzidos por sistemas de inteligência artificial com um realismo praticamente indistinguível da realidade.

Imagine que qualquer prova pode ser fabricada.

Mas imagine também que qualquer prova autêntica pode ser descartada como sendo uma fabricação.

Não estamos apenas perante um problema de desinformação.

Estamos perante a possibilidade de um fenómeno muito mais profundo. Aquilo a que poderíamos chamar um colapso epistémico (para efeitos deste artigo), isto é, o momento em que uma sociedade deixa de conseguir distinguir, com um grau razoável de confiança, entre a verdade e a mentira, entre a realidade e a ficção, perdendo assim a base factual comum sobre a qual assentam o debate público, a cooperação e a própria democracia.

A diferença é enorme.

Mentiras sempre existiram. Propaganda sempre existiu. Manipulação sempre existiu.

O que poderá ser verdadeiramente novo é a perda da própria capacidade coletiva para distinguir, com um grau razoável de confiança, aquilo que aconteceu daquilo que nunca aconteceu.

A democracia precisa de factos antes de precisar de opiniões

Costuma dizer-se que a democracia vive do pluralismo. É verdade.

Mas existe uma condição anterior.

A democracia não exige que os cidadãos concordem sobre valores, ideologias ou prioridades.

Exige apenas que partilhem uma realidade suficientemente comum para que essas........

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