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Yesteryear

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15.06.2026

O aspeto que mais me surpreendeu nos primeiros episódios de Outlander não foi que a protagonista fosse misteriosamente transportada para 1743 ao tocar nas pedras de Craigh Na Dun – a literatura está repleta de histórias assim. O que mais me surpreendeu foi o facto de Claire se adaptar tão rapidamente ao mundo do século XVIII. Cozinhar daquela maneira, lavar a roupa assim, não haver casas de banho?

Pensemos melhor. A história começa no final da segunda guerra mundial e, por isso, talvez não seja inimaginável que se pudesse viajar dois séculos para trás sem se ficar paralisada com a diferença tecnológica. Mas isto mostra-nos quando é que tudo começou realmente a mudar. As inovações tecnológicas desde o final da guerra foram de tal ordem, e continuaram com tal rapidez, que hoje nenhuma mulher do mundo ocidental seria capaz de se orientar no século XVIII.

Temos de reconhecer que, apesar do discurso vitorioso das feministas, foi o desenvolvimento tecnológico a transformar a condição das mulheres na segunda metade do século XX. Não ficarem dependentes de manter o fogo vivo, não perderem horas a lavar roupa – secar roupa – passar roupa, terem máquinas de lavar loiça, aspiradores e frigoríficos.

Foi esta grande transformação a tornar obsoleta a vivência feminina e o modo como as sociedades se organizavam. Em Portugal, ainda está por fazer a história das criadas, as meninas que iam da aldeia para as vilas ou para as cidades para ajudar uma família (às vezes só um pouco mais rica), dedicando a ela toda a sua vida e a quem a família se apegava com carinho (e não foi assim há tanto tempo).

A tecnologia doméstica transformou a esfera doméstica, embora curiosamente não nos tenha dado o condão de gerir bem o tempo: quanto mais tecnologia temos, menos tempo parecemos ter. Mas é verdade que permitiu reorganizar os “papéis de género” e, assim, transformar as expectativas das mulheres, libertando-as das funções tradicionalmente desempenhadas para poderem, finalmente, ser o que quisessem.

O problema é que as mulheres não parecem estar hoje........

© Observador