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Carta à Carolina

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10.08.2026

foi com interesse que ouvi o episódio do podcast As histórias da Bíblia: Perguntas dos ouvintes dedicado à tua pergunta. E apreciei de tal forma a tua iniciativa, pouco comum entre os mais jovens, de colocar perguntas e tentar compreender melhor o mundo que não resisto a esta intromissão para tentar contribuir igualmente para a tua reflexão.

De acordo com o jornalista João Francisco Gomes, que apresenta o teu email, gostarias de compreender melhor a fé cristã porque tens muitos objetivos e sonhos e o papel da mulher na Bíblia te parece “desmerecido”. Como estudiosa do pensamento feminista, interpretei as tuas inquietações como reflexo de um certo “feminismo cultural” que invadiu o nosso espaço público nos últimos anos e que tem origem num tipo específico de feminismo, que se alimenta da fantasia de que existiram três inimigos históricos das mulheres: os homens, a religião e as tradições. O problema é que nenhuma destas hipóteses-inimigas sobrevive a um escrutínio rigoroso.

Comecemos pelos homens e o uso da linguagem. A verdade é que as palavras que usamos para falar sobre o mundo não são neutras: carregam sentidos específicos e podem condicionar a forma como pensamos. É por isso que devemos ser cuidadosos na escolha do vocabulário, em especial quando elas se tornam ideológicas, ou seja, quando têm como objetivo fazer-nos pensar de determinada forma política. O melhor exemplo é a palavra “género”, que entrou no nosso léxico com o objetivo de nos fazer pensar de uma determinada maneira: que tudo é uma questão de género (de papéis sociais) pelo que não haverá uma realidade biológica subjacente ao modo como nos comportamos e organizamos socialmente. Mas uma pessoa intelectualmente rigorosa sabe que isso não é verdade: “género” e “sexo” correspondem a coisas diferentes, pelo que devemos saber quando usar uma palavra e quando usar a outra. Estar consciente dessa diferença significa que, embora possamos reconhecer que homens e mulheres são juridicamente iguais, homens e mulheres nunca serão materialmente (biologicamente) iguais.

É este tipo de raciocínio que devemos aplicar igualmente à palavra “patriarcado” (que o padre João Basto utiliza com demasiada facilidade, mas que talvez nem tenhas utilizado no teu email). A palavra “patriarcado” tem sofrido uma alteração no seu sentido e é usada habitualmente como “sistema político organizado pelos homens para exercer poder e opressão sobre as mulheres”. Isto significa que o seu uso nos leva a crer – ao estilo de uma teoria da........

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