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Deem-nos alguma coisa em que acreditar

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1.A viagem do Papa a Espanha tocou numa ferida, incentivou uma resposta e suscita uma cautela. Mas, antes de tudo, deve lançar um aviso sobre o espaço público: é possível que as democracias necessitem, estruturalmente, da religião para sobreviver. Não porque a religião defenda um código moral ou preste um serviço social, mas porque a democracia assenta numa promessa de redenção que, só por si, não consegue cultivar. Se o mundo moderno promete controlar o incontrolável, a religião, enquanto cultura da transcendência, possui, por um lado, uma disposição para modos de vida que não participam na lógica da aceleração e, por outro, uma capacidade de abordar a alteridade e a diferença preservando a disponibilidade para reconhecer o incognoscível. A ideia não é nova. Tocqueville já tratou o assunto de forma sumarenta, mas, mais recentemente, Hartmut Rosa sintetizou esta conclusão falando de “ressonância”. Por isso, os líderes e os membros do espaço público têm uma decisão a tomar: continuar a procurar relevância, aceitando as lógicas alienantes que sustentam a vida moderna; incentivar o ressentimento e a raiva diante dos excessos, procurando um tipo de controlo regressivo; ou responder ao momento com uma sensibilidade dialógica, encontrando novas vozes na conversa, novas complexidades e novos conceitos.

2.Nesse sentido, importa voltar à ferida, à resposta e à cautela. No discurso, no Parlamento espanhol, que esteve longe do tom próprio de um concurso de Miss Universo, Leão XIV referiu, a certo passo, “a questão de Salamanca”. Trata-se, de facto, de um dos capítulos quase não escritos da história do pensamento político, e a inclusão do tema no discurso papal parece-me pouco inocente. Efetivamente, algo afastada dos centros da Renascença........

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