Quem não faz a mala não faz caminho
A mala estava aberta em cima da cama e eu olhava para ela como quem olha para um mistério. Tinha 15 anos. A minha mãe dobrava a roupa devagar, não por perfeccionismo, mas porque cada dobra era uma forma de ganhar tempo. O meu pai andava pela casa a verificar coisas pequenas — se levava meias suficientes, se o casaco era o mais quente — porque há pais que falam de amor através do cuidado prático. Nenhum deles fez discursos. Nenhum me disse “estás a tornar-te adulto”. Mas hoje sei que aquele dia era exatamente isso.
Eu ia para o seminário. Não ia fugir de casa, nem provar nada a ninguém. Ia porque sentia que tinha de ir. A mala era pequena, mas levava dentro uma coisa grande: a primeira decisão que me tirava do território onde tudo era resolvido por outros.
Na altura não pensei em maturidade, nem em crescimento. Pensava apenas no dia seguinte. Só muitos anos depois percebi que aquele gesto simples — fechar uma mala e sair — era uma espécie de porta interior que se abre. Crescer começa quase sempre assim: quando alguém aceita fazer a própria mala e assumir o próprio caminho.
Guardei essa memória sem lhe dar muita importância até regressar, já adulto, à universidade. Voltar a ser aluno depois de já ter vivido bastante vida é um exercício curioso: aprende-se a matéria, mas aprende-se ainda mais a observar. E foi a observar que a mala me voltou à memória.
Sentado na sala, rodeado de jovens de 19 e 20 anos, comecei a reparar em........
