Quando o poder não sabe pedir desculpa
Há momentos em que o problema deixa de ser a polémica e passa a ser aquilo que ela revela. O episódio recente envolvendo Cristina Ferreira não é apenas mais uma tempestade mediática: é um retrato nítido de um vício contemporâneo — o de quem, estando em posição de poder, desaprende a pedir desculpa, mesmo quando o assunto é grave.
E aqui convém não suavizar: estamos a falar de declarações em torno de um tema profundamente sério, como a violação. Não é matéria de conversa ligeira, nem de comentários infelizes que se resolvem com um encolher de ombros. Quando se entra neste território, a responsabilidade é outra. O peso das palavras é outro. E o erro, quando acontece, exige uma resposta à altura.
Mas o que se vê, demasiadas vezes, é o contrário. Não se trata de defender o linchamento público, nem de alimentar a lógica do cancelamento. Essa deriva é tão perigosa quanto injusta. Uma pessoa não pode ser reduzida a uma frase mal dita. Mas também não se pode cair no extremo oposto: o da desresponsabilização total, como se o estatuto........
