Porque precisamos de falar do que nos assusta?
Vivemos num tempo em que o debate público parece condenado a uma escolha impossível: ou o silêncio dogmático ou a fogueira da polarização.
Sempre que alguém questiona uma decisão de grande impacto, seja a gestão de uma crise sanitária, os limites da intervenção do Estado, os custos de uma política económica ou os efeitos de uma medida seja ou não de emergência a reação tende a surgir antes da discussão.
Em vez de perguntas, aparecem rótulos. Em vez de dados, aparecem trincheiras.
De um lado, quem questiona pode ser imediatamente acusado de querer destruir as instituições, espalhar desinformação ou alimentar teorias da conspiração. Do outro, quando as instituições recusam discutir abertamente os seus próprios erros, contradições ou incertezas, criam precisamente o ambiente que dizem querer evitar.
Quando uma instituição admite que não sabe, que errou ou que uma determinada decisão pode ser reavaliada, não está necessariamente a perder autoridade. Pode estar, pelo contrário, a demonstrar que merece confiança.
O problema começa quando se confunde autoridade com infalibilidade.
O objetivo de escrutinar o passado não pode ser a caça às bruxas. Não deve servir para transformar cada erro numa conspiração nem cada decisão errada numa prova de que tudo estava manipulado.
Mas também não pode existir uma espécie de imunidade institucional perante a crítica.
Questionar não é conspirar.
Pedir dados não é negar a ciência.
Exigir explicações não é atacar a democracia.
E admitir que uma decisão foi errada não significa necessariamente que todos aqueles que a tomaram fossem incompetentes ou mal-intencionados.
Esta distinção parece simples, mas tornou-se surpreendentemente difícil de fazer.
O debate público recompensa os extremos. O escândalo chama mais atenção do que a nuance.........
