O processo da Língua: se nunca tivéssemos sido Portugueses?
Há algo profundamente inquietante na ideia de identidade.
Crescemos a acreditar que somos algo definido: um país, uma língua, uma história. Dizem-nos que falamos Português, que sempre falámos Português, que esta língua é nossa como o território que habitamos.
Mas e se tudo isso for apenas… uma decisão antiga que continuamos a cumprir?
Não uma verdade, mas uma sentença.
Para compreender o problema, temos de regressar a um tempo anterior a Portugal. Antes da bandeira, antes da fronteira, antes da palavra “nós”.
No noroeste da Península Ibérica existia uma realidade que hoje quase esquecemos: a Gallaecia. Um espaço sem a divisão que hoje nos parece natural, onde as populações do que é hoje o Norte de Portugal e a Galiza partilhavam não apenas costumes, mas uma mesma língua.
Não semelhante. Não próxima.
Essa língua, que os linguistas designam como galego-português, não conhecia reinos. Não respondia a fronteiras. Era falada de Braga a Santiago de Compostela como uma continuidade orgânica, quase geológica, como um rio que não sabe onde começa nem onde termina.
E, no entanto, algo aconteceu.
Quando D. Afonso Henriques empurrou a fronteira para sul, não levou apenas território. Levou uma forma de falar, uma estrutura de mundo. O que hoje chamamos Português não nasceu no Sul; foi transportado para ele.
O Sul não criou a língua. Recebeu-a.
E depois, em 1296, D. Dinis fez algo decisivo: oficializou a língua vulgar da corte. Não inventou uma........
