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De chinelos

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13.02.2026

Nem tudo é mau. Por estes dias, em Portugal, respira-se de alívio. Por um lado, parece ter amainado o comboio de tempestades que afectou grande parte do país, deixando um rasto de destruição, desalojados, feridos e prejuízos incalculáveis. Depois, a enchente de politiquice que ao longo do último ano encharcou o espaço público e publicado português chegou também ao fim com a eleição de António José Seguro para Presidente da República. Finalmente, um novo presidente eleito significa que se aproxima a passos largos — à hora a que escrevo faltam 619 horas e 14 minutos — o momento em que o país se verá finalmente livre de Marcelo Rebelo de Sousa. Tudo junto e, como dizia, respira-se de alívio, ansiando-se esperançosamente por algum módico de normalidade.

Nos entretantos, uma vez que saímos agora de um longo período eleitoral, o alívio reverte para o momento político e toda a gente canta vitória, assim fazendo render o seu peixe, que é como quem diz “capital político”. E por toda a gente quero mesmo dizer praticamente toda a gente, desde o vencedor das eleições e novel presidente, passando pelo derrotado da segunda volta, incluindo todos os derrotados da primeira volta e, claro está, até aqueles que nem sequer participaram nas eleições. Em política, área pródiga em actividade paranormal ou sobrenatural, quando não de inspiração divina, assistimos com frequência ao milagre da multiplicação das vitórias — e ele aí está, em pleno fulgor, desde que se acabaram de contar os primeiros votos da eleição presidencial.

Seguro, naturalmente, é o primeiro vitorioso, até porque se dá o caso de ter sido efectivamente aquele que ganhou as eleições. Vai daí e, claro está, fazendo juras de amor a Portugal, ao povo português, que é óptimo, sábio e esclarecido, bem como ao triunfo da democracia, do Bem e da Virtude, discursou de forma entusiasmada e arrebatadora sobre a forma como revolucionará o país rumo à redenção económica, política e social. Calma! Estou, obviamente, a brincar. Seguro é incapaz de arrebatamentos ou entusiasmos, pelo que, apesar de choramingar uns agradecimentos sentidos a quem o ajudou na campanha, bem como ao povo que o elegeu e o qual ora se aposta a representar, tirando isso, os seus ensejos são os de, com mais ou menos aparição pública, exercer o seu insofismável sentido de estado e, em nome dos mais elevadíssimos princípios morais e políticos, não fazer grande coisa, passando despercebido, deixando o regular funcionamento das instituições largamente nas mãos invisíveis da providência democrática e, mais importante, na convicção que depois de 10 anos de Marcelo e uma catadupa de eleições nacionais — só nos últimos 2 anos foram quatro actos eleitorais —, aquilo que o povo quer politicamente é mesmo sopas e descanso.

Sinceramente, acho bem. E o povo parece concordar, daí que nele tenha votado em número recorde. Aliás, se alguma coisa se confirmou neste último domingo eleitoral foi o quão fartou Marcelo Rebelo de Sousa. Afinal, os portugueses, por entre tempestades, raios e coriscos, a pé pela lama, de bicicleta, de barco ou jangada, acorreram a votar em volume inédito no político menos entusiasmante do planeta só porque sentiram nele a mais importante das........

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