E se a Inteligência Artificial mudar a Segurança Social?
Durante décadas, a Segurança Social foi construída sobre a premissa de que uma grande parte da população trabalha, recebe um salário e, através desse salário, contribui para financiar as prestações sociais de quem já não trabalha, está desempregado ou se encontra numa situação de maior vulnerabilidade.
É um modelo que assenta, em grande medida, na relação entre trabalho, salários e contribuições sociais.
Mas e se essa relação começar a mudar?
Na realidade, a Inteligência Artificial (IA) pode ser apenas mais uma etapa da transformação tecnológica que, como tantas outras no passado, acabará por criar novos empregos, aumentar a produtividade e gerar novas oportunidades.
Contudo, perante a dimensão da transformação tecnológica em curso, seria imprudente ignorar os riscos associados a uma transição menos favorável. Entre esses riscos contam-se a eliminação de milhares de postos de trabalho, o aumento das desigualdades entre profissões e qualificações, períodos mais prolongados de transição entre empregos e necessidades acrescidas de formação e reconversão profissional. Paradoxalmente, algumas das profissões mais expostas poderão não ser as menos qualificadas, mas precisamente aquelas que assentam em tarefas de natureza intelectual e analítica.
Mesmo que a economia continue a crescer e a produtividade aumente, a distribuição desses ganhos poderá tornar-se mais desigual. Se uma parte crescente da riqueza for gerada com menor recurso ao trabalho humano, a evolução das contribuições sociais poderá deixar de acompanhar o crescimento do produto, dos lucros e do valor acrescentado criado na economia.
Neste contexto, o desafio poderá não ser apenas garantir emprego para os trabalhadores afetados, mas também assegurar a sustentabilidade financeira dos sistemas de proteção social.
Acresce que estas transformações poderão ter efeitos que extravasam o domínio económico. Períodos prolongados de desemprego, maior instabilidade profissional e dificuldades de reconversão poderão contribuir para o agravamento de problemas de saúde mental, aumentando a procura de cuidados de saúde e de apoio psicossocial.
O debate não deve ser, portanto, entre os que acreditam que a IA vai destruir o emprego e os que acreditam que nada de substancial irá acontecer.
A questão mais importante é saber se estamos preparados para um cenário em que a economia se transforma mais rapidamente do que a capacidade de adaptação das instituições responsáveis por assegurar a proteção social.
É precisamente para responder a esta incerteza que se justifica refletir sobre a criação de um Fundo de Estabilização para a Transição Digital e a Inteligência Artificial.
O objetivo não seria travar a inovação nem assumir que os cenários mais negativos se concretizarão, mas criar uma reserva financeira capaz de apoiar a adaptação dos trabalhadores, reforçar as respostas sociais e mitigar os impactos de uma eventual disrupção tecnológica de grande dimensão.
A literatura económica não permite concluir que a IA conduzirá, necessariamente, a um desemprego generalizado.
Acemoglu e Restrepo (Automation and New Tasks: How Technology Displaces and Reinstates Labor, Journal of Economic Perspectives, 2019) mostram que a inovação tecnológica pode, simultaneamente, substituir determinadas tarefas humanas e criar novas tarefas e novas ocupações, pelo que o efeito final dependerá, consequentemente, do equilíbrio entre substituição e criação de novas atividades.
Também existem evidências de que a IA pode aumentar significativamente a produtividade dos trabalhadores. Estudos como o de Brynjolfsson, Li e Raymond (Generative AI at Work, Quarterly Journal of Economics, 2025) mostram ganhos relevantes de produtividade quando a IA é utilizada como complemento e não como substituto do trabalho humano.
Contudo, esta evidência não elimina a possibilidade de um cenário de disrupção tecnológica mais profundo.
O próprio FMI (2006), perante a enorme incerteza sobre a velocidade e a dimensão da transformação, defende que as políticas públicas devem estar preparadas tanto para um cenário de continuidade como para cenários altamente disruptivos.
Os alertas multiplicam-se
Curiosamente, algumas das preocupações mais sérias sobre a IA não provêm dos seus críticos, mas sim de investigadores, empresários e cientistas que estão na linha da frente do seu desenvolvimento.
Em 2023, diversos especialistas e líderes tecnológicos subscreveram uma carta aberta promovida pelo Future of Life Institute, defendendo uma pausa temporária na........
