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A placidez na tragédia

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Há qualquer coisa que decepciona quando, na sequência de um fenómeno natural extremo, aqueles que foram afectados por ele não se comportam como esperávamos.   Aproximamo-nos normalmente dos afectados como quem entra numa sala de espectáculos.  Em muitos casos as nossas expectativas foram espevitadas por conversas combustíveis sobre cenários dantescos e rastos de destruição.  À entrada somos recompensados pelos baldes virados e pelas fendas na terra.  Animados por estes sinais, concluímos antecipadamente que os afectados, como o público, irão uivar, acusar, ou desenvolver pensamentos filosóficos.

Quando em vez disso as reacções aos factos extremos são plácidas ficamos um pouco desconcertados.  Muitos dos afectados decerto partilharão o nosso amor pela arte, e comovem-se com as nossas comoções.  Mas a outros parece faltar o pathos; e parece sobrar-lhes também a paciência.  Como é possível que alguém se comporte de um modo tão inadequado para com a magnitude daquilo que lhe aconteceu?    Terão deixado por concluir a escolaridade obrigatória?  Ou pelo contrário saberão esses pacientes qualquer coisa que escapa aos nossos horizontes mais artísticos?

Não é provável que os plácidos se comportem com placidez nas tragédias porque saibam coisas mais profundas sobre a vida, que o público ignora: um paciente não aprende necessariamente coisas especiais por ser paciente.    É aliás frequente que quem assistiu a um facto extremo, e mesmo a um facto extremo que se passou consigo, não perceba logo, ou não venha a perceber nunca completamente, aquilo que se passou; e talvez a placidez não-filosófica dos plácidos se possa dever à sua ignorância.   Intriga não obstante que os plácidos sofram dessa ignorância de modo tão concentrado.  Será ela um castigo especial que recebem por não se conseguirem emocionar tanto como nós?

Não podemos excluir no entanto que a ignorância acerca de si próprio e daquilo que se está a passar no mundo esteja mais bem distribuída entre as partes, e que portanto afecte pelo menos em proporções iguais os afectados que não mostram interesse em estar à altura dos acontecimentos que lhes aconteceram e o público que censura a falta de emoções em certas vítimas.  Por essa ordem de razões é concebível que possa estar a escapar alguma coisa a quem no público lamenta que haja pacientes que reagem com placidez ao que lhes aconteceu, e não façam a justiça que se deve ao género trágico.

É por isso muito mais provável que sejam as nossas inclinações, e nomeadamente a nossa tendência para ver as ocorrências extremas como factos artísticos, que nos impedem de perceber certas coisas sobre as outras pessoas: que nem todos reagem às maiores contrariedades reflectindo em público sobre a magnitude das suas desgraças; que um balde virado ou uma fenda não é para todos um cenário ou uma ocasião para emoções; e sobretudo que os pacientes estão vivos, e que alguns sentem uma certa inclinação para continuar a viver.

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