Há mais vida para alem dos candidatos a candidatos
1 Vida era o que mais havia num texto do suplemento P2 de domingo 22 de Dezembro último: uma bem estruturada, vivíssima e muito interessante prosa de Cristina Ferreira onde se recordava, nos agora 50 anos da Confederação da Indústria Portuguesa, os seus extraordinários inícios. Se não conhecesse um bocadinho a matéria, diria, ao ler, que “fora impossível”, não podia “ser verdade”. Mas foi. Um texto onde, entre outros, António Vasco de Mello, Pedro Ferraz da Costa, José Morais Cabral nos levam pela mão, conduzidos pela Cristina, aos primeiros andamentos de vida da CIP. Uma saga: os tempos eram escaldantes, vivia-se com vertigem e perigo, o futuro era incerto. A cascada ritmada dos episódios recordados – a gestação da CIP, os seus fundadores-protagonistas, as fações militares, a criação do Jornal Novo, o embaixador Carlucci – oscilam entre o dramático e as tintas de um quase burlesco no que também é uma fina estampa da nossa invulgar forma de ser. Alguém que fizesse uma série de televisão tinha sucesso garantido.
E no entanto… é permitido algum amargo de boca: que é feito daquela capacidade de iniciativa, daquela tenacidade na dificuldade, daquela persistente indiferença perante os velhos do Restelo e os novíssimos revolucionários? Falar em “patrões” naquele tumulto? Arregimentá-los naquela agitação? Entregar-lhes um destino em plena revolução? Assim foi e por isso não se fica indiferente: amando o país, não tendo rancor ao dinheiro e não confundindo criadores de riqueza com “fascistas”, tomar-se-á boa nota daquela capacidade de resistência. Exactamente como nos orgulhamos dessa mesma fibra com outros actores, em outras difíceis marés.
Ao mesmo tempo que – segundo amargo de boca – se recorda ainda hoje e ainda com incredulidade, a pulverização do tecido industrial português, que nunca recuperou desde a fervura exacerbada de 1975.
Foi-me aliás constrangedor ler há tempos numa separata do Expresso que, das 1000 maiores empresas, as maiores justamente eram estrangeiras, ou comerciais, ou de serviços ! A indústria? Não sei quantos degraus abaixo… Quase tudo – ou muito – arrasado com as nacionalizações de 1975, facto hoje ou negado ou esquecido:........
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