O inferno começa quando acreditas no rótulo
O inferno não começa nas grandes quedas. Começa quando deixamos de distinguir entre aquilo que fizemos e aquilo que somos, quando trocamos a consciência pelo rótulo e a responsabilidade pela resignação. É nesse instante que a queda deixa de ser episódio e passa a ser morada.
Há uma frase, atribuída a Bel Rodrigues, que ilumina esta questão: “o diabo conhece o nosso nome, mas chama-nos pelos nossos pecados; Deus conhece os nossos pecados, mas chama-nos pelo nosso nome”. A sua força não reside na demonologia, mas na identidade. O problema nunca foi simplesmente o erro; é a tentação de nos redefinirmos a partir dele.
Habituámo-nos a uma cultura que simplifica aquilo que é complexo e transforma quedas em definições. Um deslize torna-se nome, uma falha converte-se em essência. Julgamos com ruído e perdoamo-nos em silêncio. E nesse duplo critério acabamos por perder algo decisivo: a diferença entre fazer justiça e querer condenar.
A cultura digital agravou este processo ao registar, arquivar e eternizar o instante. O passado torna-se sentença permanente. Porém, o mais inquietante não é o que os outros fazem connosco, mas o que fazemos a nós próprios. Deixamos de dizer ‘errei’ para começar a dizer ‘eu sou assim’. A frase parece humilde. Na verdade, é rendição. Mais, é aqui que começa o inferno: na identificação.
Se cair é humano, instalar-se na queda é uma escolha. Aliás, quando decoramos a falha como se fosse um destino, abdicamos da liberdade e estreitamos o futuro até quase o anular. Por isso, a falha deixa de ser acto e transforma-se em identidade.
Vejamos vários exemplos: um ciúme não trabalhado passa a ser critério; uma inveja discreta converte-se em lente; uma mágoa antiga começa a interpretar o mundo inteiro. Psicologicamente, o processo é claro: a emoção não integrada gera narrativa, a narrativa constrói identidade e a identidade molda comportamento. Passamos a viver a partir da ferida e não da liberdade, e acabamos por chamar carácter ao que é apenas defesa.
Teologicamente, a questão é ainda mais radical. O pecado não nos destrói apenas pelo que faz, mas sobretudo pelo que nos convence que somos. Quando acreditamos que a nossa pior versão é a nossa verdade definitiva, começamos a agir como se já não houvesse redenção possível e tornamo-nos cúmplices da própria condenação.
Ora, se o erro é acto, a pessoa, porém, permanece mistério. Mais, a dignidade não é o prémio reservado à boa conduta, mas o fundamento que precede qualquer queda. Identificar-se com a falha é abdicar do futuro e reduzir a liberdade à memória de um fracasso.
Há, contudo, uma dimensão mais incómoda que raramente confessamos: o rótulo também oferece abrigo. Enquanto me defino pela minha ferida, ninguém me exige crescimento; e, enquanto me declaro prisioneiro da minha história, evito a responsabilidade do presente. O inferno começa, pois, no momento em que a narrativa substitui a decisão.
Conta-se que um jovem entrou num comboio no Pocinho com destino ao Porto. A carruagem estava vazia. Sentou-se. Começou a pingar água exactamente sobre a sua cabeça e ali permaneceu. O revisor perguntou-lhe: ‘Porque não muda de lugar?’ O rapaz respondeu: ‘Troco com quem? Não está aqui ninguém’.
Não é preciso haver alguém para trocar. É preciso decidir levantar-se.
Quantos vivem debaixo da pinga constante do ressentimento, da comparação ou da culpa e preferem suportá-la a assumir o esforço de se mover? A maior prisão não é o erro; é a acomodação a ele.
Deus não ignora as nossas sombras, mas não nos chama por elas. Chama-nos pelo nome. E o nome é sempre maior do que a falha.
Enquanto acreditares no rótulo, viverás reduzido, mas enquanto decidires levantar-te, haverá futuro. Porque ninguém é definitivamente aquilo que errou.
O inferno não é cair: é desistir de se levantar!
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