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O dilema de Putin no rão

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10.03.2026

Com o eclodir da guerra no Irão, a atenção ocidental deslocou-se naturalmente do Leste Europeu para o Golfo Pérsico. Mas olhar para esta guerra de forma isolada, como se as suas consequências se limitassem ao Médio Oriente, seria ignorar ligações fundamentais que já estão a remodelar o conflito na Ucrânia. E talvez mais interessante ainda, seria ignorar a forma como esta nova guerra coloca Vladimir Putin numa posição estrategicamente ambígua, onde os ganhos óbvios escondem custos menos visíveis mas potencialmente mais significativos.

A narrativa mais imediata é simples e, em grande medida, correta. A guerra no Irão parece servir os interesses russos. A competição global por sistemas de defesa antimíssil Patriots intensificou-se dramaticamente nas últimas semanas. Há meses que Zelensky argumenta que sem reforços significativos à defesa aérea ucraniana será impossível parar as ofensivas russas de mísseis e drones que têm devastado infraestruturas críticas e cidades ucranianas. Trump tem negado sistematicamente esses pedidos, mas agora a situação agravou-se. Com ataques iranianos a bases americanas e infraestruturas civis nos países do Golfo, a procura por Patriots disparou. Os aliados americanos na região estão a exigir proteção, e cada sistema desviado para defender Riade ou Dubai é um sistema que não estará disponível para Kiev.

Esta assimetria é profundamente problemática para a Ucrânia porque, enquanto a procura por Patriots se intensifica globalmente, a Rússia mantém a capacidade de produzir internamente os seus drones Shahed, agora sob a denominação Geran. Mesmo que a guerra no Irão dificulte o fornecimento iraniano original, Moscovo estabeleceu linhas de produção domésticas que lhe permitem continuar a lançar salvas massivas. A Ucrânia, entretanto, vê o seu arsenal de intercetores sofisticados a diminuir precisamente quando a competição global por esses mesmos sistemas se torna mais feroz.

Mas a dimensão militar é apenas parte da história, e talvez nem sequer a mais significativa. O encerramento de facto do estreito de Ormuz e os ataques iranianos a infraestruturas de gás natural liquefeito, especialmente no Qatar, provocaram uma subida acentuada dos........

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