menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

European Onion: soberania às camadas

21 51
18.02.2026

Na conferência de Segurança de Munique do passado fim-de-semana, Marco Rubio afirmou que os destinos dos EUA e da Europa estavam “interligados”, numa tentativa de apaziguar os líderes europeus após a retórica agressiva da administração Trump. Mas por muito que a forma do discurso de Rubio contraste com a de JD Vance no ano passado, a substância acaba por ser a mesma: o plano das relações internacionais e da geopolítica mudou. E se a Europa quer sobreviver nesta nova era, precisa de se reinventar. Isso pode passar por tornar o projeto europeu menos uniforme, não mais.

A União Europeia enfrenta um paradoxo. Durante décadas, o projeto baseou-se na premissa de que mais integração levaria a uma Europa mais forte. A realidade tem provado o contrário. Quanto mais a UE se expandiu e tentou impor consensos uniformes a 27 Estados-membros com interesses divergentes, mais se tornou refém da inércia. A guerra na Ucrânia expôs brutalmente esta fragilidade. A dificuldade em apoiar Kiev ou sancionar a Rússia, bloqueada pela Hungria e pela Eslováquia, demonstrou que a arquitetura da UE, baseada em vetos nacionais, não é compatível com uma era que exige ação rápida. Se a Europa não consegue agir perante uma invasão nas suas fronteiras, que credibilidade tem como ator geopolítico?

A resposta a esta paralisia pode então passar por uma ideia que, à primeira vista, pode parecer contraintuitiva: em vez de forçar mais integração uniforme, aceitar diferentes níveis de integração consoante a vontade dos Estados-membros. Tornar o projeto europeu menos rígido, não mais. Esta ideia voltou recentemente à discussão através de Bart De Wever, primeiro-ministro belga, que falou da “European Onion” — um trocadilho com a pronúncia francesa de European Union. A metáfora da cebola não é acidental. Tal como uma cebola tem múltiplas camadas concêntricas, a proposta é criar diferentes níveis de integração europeia, cada um com os seus próprios compromissos e responsabilidades.

No centro, o núcleo mais duro, estariam países dispostos a avançar para uma integração quase federal em áreas críticas como defesa, economia, política externa e fiscal. Estes países partilhariam capacidades militares, coordenariam compras de equipamento, tomariam decisões de segurança em conjunto e poderiam até ter um orçamento comum. Seria, em muitos aspetos, o embrião dos Estados Unidos da Europa, mas apenas para quem quer dar esse passo.

À volta desse núcleo, uma segunda camada manteria a integração atual. Países mais céticos relativamente a integração política ou militar mais profunda poderiam........

© Observador