Cuba: o anti-Irão
A guerra no Irão deveria ter sido mais uma vitória espetacular de Donald Trump. E, de facto, a operação militar foi, em termos puramente militares, um sucesso esmagador: decapitou grande parte da liderança iraniana, neutralizou a força aérea, marinha e capacidades de lançamento de mísseis. O Irão tornou-se virtualmente indefeso num embate militar direto. Contudo, vitórias militares deste tipo são apenas úteis na medida em que servem um determinado objetivo político. Mas, passado mais de um mês, o regime permanece no poder, o estreito de Ormuz continua fechado, os mercados energéticos globais estão em caos e os americanos sentem a inflação a apertar. E Trump, que costumava conseguir transformar qualquer situação em narrativa de vitória pessoal, vê-se cada vez mais encurralado por uma realidade que não consegue moldar.
Esta guerra revela-se particularmente perigosa para o presidente americano precisamente porque está a corroer os dois principais ativos que têm sustentado toda a sua presidência: a capacidade de distorcer a realidade a seu favor independentemente dos factos, e o ascendente que consegue exercer sobre aliados e adversários para alcançar os seus objetivos. E à medida que estes dois superpoderes políticos se revelam ineficazes no Irão, Trump procura desesperadamente um novo conflito que lhe permita recuperá-los. O alvo mais óbvio, e mais conveniente a poucos meses das midterms, é Cuba. Uma intervenção rápida, visualmente impressionante, sem os custos económicos do Irão, permitir-lhe-á reconquistar o eleitorado latino que começa a abandoná-lo precisamente quando mais precisa dele.
Comecemos pelo primeiro poder em crise. Trump construiu a sua carreira política na capacidade de moldar narrativas independentemente da realidade objetiva. Consegue declarar vitória mesmo quando perde, transformar escândalos em perseguição, apresentar fracassos como sucessos estratégicos. Esta capacidade funcionou extraordinariamente bem ao longo deste segundo mandato em múltiplos contextos. Mas o Irão revelou os seus limites. A particularidade desta guerra é que o seu impacto sobre os americanos é direto e tangível, sem que Trump possa servir de intermediário ou filtro. Por mais que o Presidente insista que já ganhou a guerra, os americanos veem os preços na bomba a subir exponencialmente semana após semana. Veem as contas de energia a aumentar, sentem a inflação a apertar no supermercado. A guerra tornou-se um kitchen table issue, um problema do dia-a-dia que afeta diretamente o orçamento das famílias americanas.
E aqui reside o problema fundamental para Trump. Quando os americanos sentem o conflito no bolso, a dissonância entre o discurso vitorioso de Trump e a realidade vivida torna-se impossível de ignorar. O........
