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Síndrome do Cavalo Morto e o Sistema de Saúde

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03.03.2026

Uma reconhecida gestora da área da saúde refere, plagiando Carlos Carvalhas sem o mencionar, que depois da “droga” e do armamento o negócio da saúde é o mais rentável!  E é muito rentável!

Em 2025, no OGE, a despesa consolidada em saúde foi de 16,8 mil milhões de euros e em 2026 prevê-se que seja de 17,3 mil milhões de euros. Em março o desvio orçamental era estimado em 1,8 mil milhões de euros.

Aos quase 20 mil milhões de euros no gasto global em saúde deve-se acrescentar o referido como “out-of-pocket”. Ainda que ninguém conheça exatamente quanto gastam os portugueses em saúde do seu próprio bolso, estimativas conservadoras calculam que tudo somado possa ascender a 25 mil milhões de euros, podendo mesmo dar-se o caso de já se estar próximo dos 30 mil milhões de euros! – 10% do PIB.

Quando na década de 90 Carlos Carvalhas usou esta expressão, fê-lo para chamar a atenção para o risco de crescimento da despesa em saúde resultante da abertura da área ao sector privado. Curiosamente, a expressão é retomada duas décadas depois pelos que inicialmente eram apontados como causadores do desvio. São os mesmos agentes que agora, e numa modernidade liberal, usam o epíteto numa atitude “kitsch” de usurpação intelectual e na visão de um crescimento sem limites.

Porém, quando se fala em 30 mil milhões de euros, 10% do PIB, talvez já não estejamos perante o “terceiro negócio mais rentável”, mas a venerar o campeão absoluto. No mundo financeiro da aplicação de capitais, os rivais da saúde têm limitações incómodas. Carecem de aprovação social, enfrentam repressão legal e, pior ainda, têm a deselegância de eliminar a própria clientela. A saúde é um negócio infinitamente mais sofisticado. Não elimina consumidores, cultiva-os. E cultiva-os num mundo de ilusões hipertrofiadas, um mundo onde a verdade deixou a lógica de Bertrand Russell, para no plano onírico se vender promessas e desejos que, por serem tão primários, tornam o custo em algo de supérfluo. Vendem promessa, comercializam esperança, embalam longevidade, distribuem uma ilusão de controlo sobre o corpo e o tempo. É um mercado que toca o nervo mais íntimo do ser humano — o medo e o desejo — um “El Dorado” de qualquer negócio em que se oferece, em prestações suaves, a eternização do umbigo. Quem, no seu perfeito juízo, recusaria mais saúde ou um pouco mais de vida?

Claro que tem um custo, mas, e isso é importantíssimo neste modelo de negócio, tem um custo, mas não um preço. Tem um custo contabilístico, mas o preço, esse, é sempre moral. E a moral no mundo narcisístico de hoje há muito que abandonou os “Imperativos Categóricos” de Kant, se é que alguma vez por lá andou!

Os sistemas públicos de saúde, de inspiração “beveridgiana” e “bismarckiana” partilham uma virtude civilizacional, socializam o custo. Divergem, porém, na arte de o tornar invisível. No modelo “bismarckiano”, o cidadão ainda tropeça ocasionalmente na fatura – há contribuições, descontos, números que recordam e sublinham que alguém paga. No modelo “beveridgiano”, como o português, o custo evapora-se numa névoa fiscal. Não desaparece, sublima-se.

O resultado é uma pequena obra-prima política. Construiu-se um sistema caríssimo, que se apresenta como gratuito, que exige um esforço coletivo gigantesco, mas que se vive como um direito natural, quase biológico. O utilizador não paga no momento da utilização e, conclui, legitimamente, que não paga. A sociedade suporta, o Estado intermedeia e o cidadão consome com a tranquila convicção de que a abundância é um atributo estrutural da realidade.

Neste arranjo elegante, o preço é uma vulgaridade desnecessária. Fala-se em direitos, nunca em limites, fala-se em acesso, mas raramente em escassez. E assim se constrói um modelo onde todos exigem o máximo, ninguém sente o custo e a conta, essa entidade abstrata e paciente, continua a crescer discretamente.

A entrada dos prestadores privados na área da saúde veio acentuar ainda mais esta desconcertante décalage entre preço, custo e responsabilidade individual. Se o modelo de negócio do setor privado assentasse exclusivamente na decisão livre e consciente de cada cidadão, como sucedia no universo quase artesanal dos “consultórios privados”, o próprio consumo encontraria mecanismos naturais de regulação. Mas não é esse o cenário que se desenhou. O modelo dos privados em saúde evoluiu para algo mais sofisticado e estrutural – moldou narrativas, ocupou espaço mediático, estimulou a procura, elevou o grau de exigência sobre os prestadores públicos e fragmentou os recursos. De mansinho, com “pezinhos-de-lã”, cresceu por capilaridade, “sugando” recursos para os quais nunca contribuiu e quando a inevitável fragilidade do sistema público se tornou suficientemente visível, porque em Portugal as fragilidades acabam sempre por se tornar argumento, posicionou-se com notável prontidão como solução. Inicialmente prontificando-se........

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