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O Regresso do Homem Religioso

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18.04.2026

Pautei toda a minha vida por certezas. Certeza de ser racional, ponderado, lúcido. Certeza de por entre o incerto haver sempre um caminho, um trilho, uma escarpa que leve à luz. Um rumo de, e para a lucidez. Sim, sou filho do iluminismo, da ciência, da demanda, da procura e da resposta, do método experimental, do mundo dos porquês! Nasci num mundo saído do ábaco que de há dois séculos acelerou em vertigem. Aprendi na lousa, usei pena, lápis, caneta, esferográfica. Tive papel, tabela de cálculo, calculadora de bolso, computador, portáteis, internet, WWW. Hoje, tenho isto tudo na palma da mão.

Se numa viagem mágica retrocedesse alguns milhares de anos e, nesse passe de mágica, surgisse assim, de repente, defronte de um sapiens do Neolítico, seria visto como um Deus!

Seria idolatrado, iriam-me construir monumentos, dar-me-iam oferendas, curvar-se-iam à minha passagem. Temer-me-iam, não ousariam olhar-me nos olhos! E se algum herege, um apóstata se atrevesse a desafiar-me, rugir-lhe-ia com voz tonitruante e enviar-lhe-ia o meu raio de morte. Ameaçá-lo-ia com pragas e numa fúria épica condená-lo-ia ao esquecimento. Amaldiçoava-lhe a prole e todos aqueles com que num raio de 1000 metros alguma vez tivessem privado! Seria O seu Rei, seria Divino. Porém, se não tivesse o comportamento vingativo do velho Deus, O do antigo Testamento, e se junto à fogueira, no conforto do círculo entre pares, se em comunhão numa noite estrelada e no calor das labaredas partilhássemos o alimento e as histórias do dia, se nesse momento de harmonia me olhassem no coração ensiná-los-ia o como tudo funcionava, como era o mundo, quais as leis e equações, ensiná-los-ia a fazer previsões, cálculos, contudo, se me olhassem no coração, bem fundo no coração veriam, que tal como eles, me sentia perdido sem as respostas sagradas que sempre procuramos. Porquê? Qual o sentido? Tem um objetivo? Qual o propósito? Tem um fim? Há algum depois? Se lhes abrisse o coração veriam que todas as questões que os atormentavam são exatamente as mesmas que me levam a escrever este texto.

Passaram 40.000 anos desde que nas grutas de Lacaux, Altamira ou de Chauvet registámos as mesmas empreitadas, a mesma jornada e eventualmente procuramos resposta aos porquês que ainda hoje nos atormentam. Passaram 10.000 anos desde que o homem construiu o primeiro monumento de que temos registo – Göbekli Tepe, um ponto de reunião, um ritual, uma celebração, senão de uma divindade, pelos menos da procura de algo que dê sentido à vida e à existência.

Esta procura de apoio, de proteção, de algo divino, brotou por toda a esfera terrestre num florir primaveril, como se tudo estivesse programado para assim ocorrer. Desde os primórdios dos registos dos Sapiens que é possível encontrar vestígios deste misticismo e espiritualidade humana – Rituais em enterros pré-históricos com cerca de 100.000 um pouco por todo o lado, África, Europa e Ásia; Göbekli Tepe, 9000 a.C. Ásia; Petróglifos, 9000 a.C. América do Sul; Nabta Playa, 6000 a.C. África; Stonehenge, 3000 a.C. Europa; Caral, 3000 a.C. América do Sul; Tábuas Cuneiformes Mesopotâmia, 3000 a.C. Ásia; Complexo de Gizé, 2600 a.C. África; Epopeia de Gilgamesh, 2100 a.C. Ásia; Templo de Karnak, 2000 a.C. África; Enuma Elish, 1800 a.C. Ásia; Código de Hamurábi, 1754 a.C. Ásia; Rigveda, 1500 a.C. Ásia; Antigo Testamento, 1200 a.C.: Ásia; Monte Albán, 500 a.C. América do Norte; e tantos outros poderiam ser citados. São todas elas manifestações de uma espiritualidade surgidas numa diversidade geográfica que não acolhe qualquer efeito de contágio civilizacional. Uma diversidade que parece emergir de algo muito intrínseco aos humanos, a emergência do homem religioso.

Não sei se foi o homem que inventou Deus, ou se........

© Observador