O Mês “Horribilis”
Há meses que entram para a história pelos acontecimentos que os marcam. Junho de 2026 ficará registado nos anais do Serviço Nacional de Saúde pela quantidade e qualidade de legislação publicada em poucos dias. Esta torrente normativa não foi uma reforma, não foi uma visão disruptiva, ou sequer um vislumbre. Foi um pacote burocrático, ou talvez mais rigorosamente, um exercício de fé na convicção de ser possível reorganizar o SNS a partir de um gabinete, desde que haja disponibilidade e engenho, e se publiquem portarias em número suficiente. Uma verdadeira “incontinência legislativa”, se me permitem!
O actual elenco governativo já ensaiara uma “opera bufa” em 2024 quando recorreu aos serviços de pretensos áugures, dos que habitualmente se arrastam nos corredores do poder com um pé na “coisa pública” e a fé no porvir, sempre disponíveis para ajudar desde que uma mão lave a outra e a coisa lhes role a favor. São modos operandi históricos, repetidos vezes infindas, muitas vezes, como foi o caso, revestidos de uma comicidade burlesca para que ninguém os tome por sérios. Para os habitantes destes ecossistemas mal os interesses se alinham e auguram favores, logo rasgam as vestes em defesa da “coisa pública” – e aqui “coisa” na sua prosaica materialidade. E, no caso em apreço, fruto do apego ao erário, em discretos enlaces de conveniência, deram à luz desejado rebento que batizaram de PES. Porém, hélas, um nascituro que, infelizmente e para desespero dos progenitores, outro vigor não teve que o de um “nado-morto”. E digo nado porque nasceu, e morto porque foi o que se viu.
Os progenitores incapazes de reconhecer as evidentes malformações, de imediato procuraram nutriz que lhe desse peito e acrescentasse credibilidade. E na procura do valoroso selo não tiveram de esforçar muito porque nestas coisas bidirecionais da mama e, independentemente da voluptuosidade do órgão, há sempre disponíveis desde que no retorno o palco esteja garantido.
Porém, a “coisa” tinha tudo para correr mal, e como “opera bufa” que era, tinha de terminar em apoteose, num “grand finale”. Foi o que viria a acontecer quando uns reclamaram da “secura do peito” e outros a dar nota que o rebento sempre fora um “nado-morto”.
O espetáculo poderia ter sido divertido, não fora perturbar diretamente a vida das pessoas. Enfim, teve pelo menos a virtude de definir a qualidade cénica da trupe – excelente para o género, diga-se de passagem!
Passado o ímpeto inicial, conhecido também por expressão mais vernácula, os meses sucederam-se com tímidos arremessos legislativos e a latente dificuldade de piorar o que o que mal já estava. E se a normalidade decorria rendida a um “pior não fica”, alguém entediado de escassa legislação, logo decidiu colar o junho de 2026 a este novo........
