#ÉAVida
– Bom dia, Sr. Francisco. Então, como passou a noite?
Dormi como um passarinho, respondeu! Na verdade, a imagem que de si tinha era a de uma coruja de olhos vidrados. Uma coruja em constante sobressalto, respondendo aos sons, apitos, sirenes e gemidos daquela parafernália de doentes, funcionários e equipamentos. Eram noites que se repetiam como partituras por escrever, sem memória da noite anterior, sempre as mesmas árias.
“Como passei a noite?”, questionava-se coberto pela fina e curta bata que lhe desnudava a dignidade que ainda lhe sobrava. Descartável, era assim que se sentia, descartável como um qualquer objeto sem reutilização possível.
Como passara a noite? Era não era uma pergunta, era um automatismo, algo mecânico sem preocupação, interesse, ou mesmo uma discreta curiosidade. Como passara a noite? Não era uma pergunta legítima para quem não se imagina a calçar os sapatos do outro.
E como seria possível passar bem a noite, ou sequer descansar sem dormir, se estava rodeado de fantasmas que na penumbra da noite piscavam, tremeluziam, cintilavam e vestiam, ora de amarelo-pálido, ora se assumiam com um laser intimidatório e perturbador. Como era possível embalar ensimesmado por entre frio, luzes e ruído constante?
A certa altura, da madrugada, desistira de procurar o sono ausente e entregara- se à estranha sinfonia daquela UCI. De olhos arregalados na penumbra, com um olhar expectante que a tudo atenta e já sem espaço para o descanso, seguia cada ruído como se entrasse numa nova linguagem, um dialeto mecânico onde intuía o próximo som e nele o novo andamento do que se lhe assemelhava a uma grande composição.
Primeiro vinham sons dispersos, desordenados, como músicos entrando no fosso de uma orquestra antes do espetáculo começar. Um monitor soltava notas agudas e insistentes, mais ao fundo, uma bomba de infusão marcava um compasso metálico e paciente. Rodas de macas deslizavam pelo corredor com o arrastar grave de contrabaixos cansados. Havia até ruídos que lhe lembravam afinações de instrumentos – pequenos apitos, cliques e sopros mecânicos, como se cada máquina procurasse encontrar o tom certo antes da apresentação.
Depois, sem que percebesse exatamente quando, toda aquela cacofonia parecia ganhar ritmo e harmonia. Os passos rápidos dos enfermeiros cruzavam-se em cadência, portas abriam e fechavam como pratos de percussão, e as vozes dos funcionários subiam ou desciam em diferentes tons e, numa encenação perfeita pareciam substituir pela escala que percorriam os cantores de uma grande ópera ali improvisada, num cenário performativo onde exaltavam a miséria humana. Um pedido dito à pressa assumia tons recitativos, uma ordem curta tinha a firmeza do maestro, e não muito longe, duas camas ao lado, o Sr. Amadeu expirava gemidos intermitentes, intervalados pelo roncar barítono de inspirações compassadas. Ao longe, para além do zénite da visão, sussurrava-se uma doce melodia de suspiros e queixumes de uma sofrida mezzo-soprano, soprada por duas almas que do outro lado as emitiam como árias dolorosas em que as pausas prolongadas pelo seu silêncio sublinhavam o estridor constante dos alarmes.
E o Sr. Francisco, imóvel, sentia-se espectador e instrumento de uma composição interminável. Com o olhar fixo no teto, vigilante como uma ave noturna pousada sobre a própria insónia, percebia que, sendo noite, ali ninguém dormia verdadeiramente. O frio prendia-lhe os pés, os olhos ardiam de cansaço, mas havia qualquer coisa de hipnótico nessa orquestra noturna que como serenata lhe recordava que entre a morte e o suplício extremado não existe linha divisória. E assim se embalou naquela noite, entre a saudade de um passado que apenas se resumia à memória de tudo o que fora e um presente agora dominado por uma música sem beleza nem ensaio. Uma música feita de máquinas, sofrimento e vigilância que, em matinée tardia continuaria a tocar até o amanhecer dissolver lentamente o espetáculo.
O Sr. Francisco ou o Doutor Francisco Castro, como fora conhecido anos antes até se reformar, nascera no Alto Alentejo, onde passara a infância e a meninice e de onde lhe vinham os largos sonhos e uma quase narcísica vertigem pelas liberdades a perder de........
