Impossibilismo, essa doença infantil do nosso tempo
1 Em 2018 começaram a chegar à costa sul do Reino Unido embarcações precárias com imigrantes que, cruzando o Canal da Mancha, tentavam uma entrada ilegal no país. Nesse ano terão entrado assim 299 “ilegais” e o governo de então, conservador, prometeu um reforço das patrulhas.
O ano passado entraram por essa via 41.472 imigrantes, o segundo ano com mais entradas – o record foi em 2022, com um registo de 45.774 “ilegais”. Em 2025 com um governo trabalhista, em 2022 com um governo conservador.
Em 2026 completar-se-ão dez anos sobre o referendo do Brexit, um referendo onde o voto pelo abandono da União Europeia ganhou com a promessa, entre outras, de assim o Reino Unido recuperar o controle das suas fronteiras. Não aconteceu, como está à vista de todos.
O falhanço das promessas – e dos esforços – dos dois grandes partidos britânicos nesta frente parece evidente. Mas não só nessa frente. Lendo a imprensa britânica percebemos que lá, como cá, se multiplicam as queixas relativas ao sistema de saúde, o mítico NHS que serviu de matriz para o nosso SNS. E que lá, como cá, os jornais estão cheios de referências à crise da habitação. Ou de protestos por causa do custo de vida. Ou ainda de polémicas envolvendo políticos e governantes.
2 Neste quadro só quem estivesse muito distraído poderia ter ficado espantado com o resultado obtido pelo partido de Nigel Farage nas eleições locais – e pelo aparatoso colapso eleitoral do partido do primeiro-ministro, o trabalhista Keir Starmer. Não sendo uma eleição nacional – os britânicos elegeram membros das assembleias locais e, no País de Gales e na Escócia, elegeram também os parlamentos regionais –, a verdade é que desta vez não se pode falar apenas de um voto de protesto (como sucede, por exemplo, em eleições europeias) e muito menos de um voto com estritas motivações locais. De acordo com os estudos de opinião, os eleitores quiseram mostrar até que ponto estão cansados e já não acreditam nos dois grandes partidos históricos (para além dos trabalhistas, que sofreram mais,........
