“A Queda de um Marmanjo” e as Santas do pau Bloco
Conta Camilo Castelo Branco que Calisto Elói de Silos e Benevides de Barbuda, morgado da Agra de Freimas, é eleito deputado em 1859. Muda-se de fidalgas armas e baús para Lisboa, onde (spoiler alert para jovens) principiará a queda a que o título alude. Enfeitiçado pelas maravilhas da dissoluta capital do Império, ausentes em terras de Miranda, depressa sucumbe aos prazeres da carne, traindo os seus sólidos princípios aristocratas, os seus pios valores cristãos e a sua desenxabida mulher banal. Qual Calisto Elói hodierno, Miguel Arruda chegou ao Parlamento vindo dos Açores com a missão de moralizar os costumes, a pender perigosamente para o cosmopolitismo globalista, para também ele acabar corrompido. Não pelas mulheres, pelas bagagens.
As senhoras que embasbacaram Calisto, por nunca as ter vislumbrado nas berças (afinal, sua esposa era “mais feia do que pede a razão que seja uma senhora honesta”), transformam-se nas malas que deslumbram o micaelense Arruda, que, talvez acostumado a monótonos alforges, nunca as terá visto tão variadas em forma, tamanho e cor. E, mais tarde, em conteúdo. Quando se anda as primeiras vezes de avião, há quem fique maravilhado com o prodígio físico que é levantar e sustentar nas alturas um contentor de aço gigante; já Miguel Arruda maravilha-se pela oportunidade de furto. Como é possível tão fácil? A culpa, claro, é da ANA, que permite que as malas fiquem ali sozinhas, à mostra, de mini-saia, mesmo a provocar os homens sérios.
O desvio da rectidão provinciana perante a dissolução da Babilónia à beira-Tejo não é o único atributo que o morgado transmontano e o parlamentar açoriano partilham. Como Camilo revela logo no início, Calisto Elói é casado com Teodora, sua prima segunda. Ora, não interessando para aqui a situação matrimonial de Arruda, parece-me de todo evidente que na sua ascendência abundam uniões entre primos. Há membros do Chega que ouvimos falar e pensamos: “Que tipo sanguinário!”. Arruda é daqueles que faz pensar: “Que tipo consanguinário”. Não é preciso ser discípulo de........
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