O memorando da capitulação americana?
Se o Memorando de Entendimento (MOU) entre os EUA e o Irão for aquilo que tem sido descrito, e isso deverá saber-se já, no dia em que este artigo é publicado, não acaba com a guerra, apenas ajuda a República Islâmica a preparar a próxima. É, no fundo, uma capitulação envolvida em retórica para permitir à Administração americana clamar vitória naquilo que, num mundo despido de eufemismos, é uma crua derrota. No Médio Oriente os eufemismos têm cadáveres agarrados.
Segundo os termos divulgados, o MOU abre um período de 60 dias para novas negociações, estabelece a reabertura do Estreito de Ormuz, cria mecanismos de alívio financeiro ao Irão, inclui entendimentos sobre o Líbano, ignora objectivos declarados da campanha (mísseis e proxies) e deixa para as Calendas as questões nucleares. Tudo isto, aparentemente, sem que Israel, o principal alvo da sanha iraniana e o país que lidará directamente com as consequências reais do acordo, faça sequer parte da negociação. Israel, o país que lutou lado a lado com os EUA, parece estar a ser tratado como se fosse um familiar incómodo sentado ao fundo da sala. Trump, repetindo um padrão, apunhala um aliado pelas costas a meio do combate, e passa a sua simpatia para o inimigo. Já o fez antes com a Ucrânia, países da Europa, Japão, Coreia do Sul, etc.
A Israel trata com arrogância e exige que confie. A Teerão elogia e suplica que prometa. Aos países da Europa que aplaudam. É o tipo de coreografia que costuma anteceder o desastre.
Para o regime iraniano, 60 dias são tempo para respirar, esconder material, endurecer instalações, redistribuir urânio, reorganizar redes, aliviar pressão interna, recompor proxies e transformar cada exigência de verificação numa agressão intolerável. O regime não precisa de 60 dias para se tornar moderado, apenas para continuar a ser o que é. Irá negociar até à eternidade, começando pela cor das esferográficas.
Depois há o dinheiro. O alívio financeiro, é apresentado como incentivo. A ideia, delirante na sua ingenuidade, é que os generais receberão gordas notas de dólar e, tomados por súbitas vocações escandinavas, irão investir em direitos das mulheres, liberdade de imprensa e bolsas de estudo para dissidentes. Infelizmente não será nada disso. O regime iraniano usará o dinheiro para pagar aos Guardas Revolucionários, reforçar a repressão interna, recompor o Hezbollah, alimentar os........
