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MICE, toupeiras e papagaios

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As acções híbridas russa, chinesa, iraniana e da Irmandade Muçulmana na Europa, não tem o romantismo e a patine das histórias de John le Carré. Faltam as mulheres fatais, os sobretudos Burberry, a chuva londrina e os encontros à meia-noite junto de uma ponte envolta em neblina.

Em compensação, há funcionários públicos ressentidos, militares do reviralho, páginas falsas de jornais verdadeiros, professores mais ou menos universitários, jornalistas, empresas tecnológicas, organizações de fachada, comentadores engravatados e uma extraordinária quantidade de cidadãos ocidentais absolutamente convictos de que a culpa daquilo que os nossos inimigos fazem não é deles, mas sim nossa.

Talvez por isso, a UE trata a combinação de espionagem, ciberataques, sabotagem, intimidação, manipulação informativa e interferência política como uma ameaça híbrida crescente, cujos métodos variam, mas cujo objectivo é levar a que uma sociedade livre se enforque com as suas próprias liberdades.

Comecemos pelos profissionais.

Em Portugal tivemos, por exemplo, Frederico Carvalhão Gil, do SIS, detido em 2016, a entregar documentos a Sergey Pozdnyakov, do SVR russo em troca de dez mil euros. Foi condenado a 7 anos de prisão. Vender a Pátria é bastante mais barato do que comprar um carro utilitário em segunda mão.

Lá fora, o catálogo não desmerece.

-Herman Simm, alto funcionário do Ministério da Defesa estónio, passou informação ao SVR e apanhou 12 anos de prisão.

-Peyman Kia, dos serviços de segurança e das Forças Armadas suecas, forneceu informação ao GRU, e recebeu prisão perpétua. Na Suécia, sabemos agora, a expressão “temos de compreender o contexto” não produz redução de pena.

-Walter Biot, capitão-de-fragata italiano, foi apanhado a entregar documentos a um russo por cinco mil euros. Há garrafas de vinho que custam mais e não comprometem tanto.

-David Smith, segurança da embaixada britânica em Berlim, coleccionava material sensível, simpatia por Putin e antipatia pelo próprio país. Acabou condenado a mais de 13 anos. Tinha em casa uma grande bandeira russa e memorabilia soviética. A contra-informação britânica podia ter começado por reparar na decoração.

-Thomas H., capitão alemão, resolveu oferecer documentos aos russos. Segundo o tribunal, agiu sob a influência de uma voz pró-russa que seguia. Foi condenado a 3,5 anos.

Os serviços de informações resumem tradicionalmente as motivações do típico traidor na deliciosa sigla zoológica “MICE” (Money, Ideology, Coercion/Compromise, Ego).

Não são propriamente quatro virtudes teologais.

Significam que uns querem dinheiro, outros gostam do inimigo ou detestam o grupo a que........

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