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WASP is back. E desta vez com sotaque do Tennessee

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12.05.2026

Em 1985, Donald Trump comprou Mar-a-Lago por oito milhões de dólares. A casa principal por cinco, o mobiliário e a praia por três. Era a propriedade mais valiosa de Palm Beach e ninguém a queria, porque os custos operacionais tinham afastado todos os compradores sérios durante uma década. Trump tinha tentado entrar nos clubes de Palm Beach, Bath and Tennis, Everglades, e foi recusado em todos. Comprou então a casa que ninguém comprava, transformou-a em clube privado e abriu-o, com cuidado coreográfico, exactamente em frente ao Bath and Tennis. A partir dali, os sócios do clube que o tinha rejeitado passaram a olhar, da varanda, para o terreno onde Trump recebia quem pagasse a quota. A vingança foi imobiliária e pornograficamente pública, como tudo o que ele faz.

Para perceber o que o seu acto representou, é preciso perceber o que era o clube, e quem o frequentava. Os WASP, White Anglo-Saxon Protestants, nunca foram exactamente uma classe de rendimento. Eram um código. Discrição, continuidade, deferência institucional, desconfiança visceral do exibicionismo, sentido de que a riqueza se gere e não se exibe, e de que o dever institucional precede o gosto pessoal. Funcionavam como o great and the good britânico, com a mesma economia de gestos. Os bancos antigos de Boston e Filadélfia, o Departamento de Estado, o New York Times dos Sulzberger, as fundações Ford, Rockefeller e Carnegie, e por fim Harvard, Yale, Princeton e Columbia. Não era uma lista de nomes, era um circuito de instituições que se reconheciam mutuamente e que filtravam por código, não por mérito.

Tocqueville entendeu-o em 1835, antes de existir nome para o descrever. A democracia americana, escreveu ele, teria sempre uma aristocracia informal, uma camada que organizaria o tom da república sem aparecer no organigrama.

O sistema funcionava por dois circuitos paralelos. Havia o WASP de Boston, Newport e Filadélfia, com as suas casas em Beacon Hill e os verões em Bar Harbor. E havia o circuito judaico de Wall Street, Goldman, Lehman, Loeb, Warburg, com riqueza equivalente e por vezes superior. Os dois mundos faziam negócio, casavam-se ocasionalmente, frequentavam por vezes os mesmos restaurantes. Mas o porteiro do Bath and Tennis não media dinheiro, media pertença.........

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