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Sem atenção não há liberdade

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02.03.2026

Esta semana irromperam nas redes sociais posts e comentários sobre o Ramadão na Alemanha e uma campanha da McDonald’s que, durante o dia, “apaga” imagens de comida dos outdoors digitais(1) e só as mostra depois de anoitecer. Marketing? Naturalmente. As marcas não têm dilemas de fé: têm um mercado para captar e uma quota para defender. E, quando um grupo deixa de ser periférico e passa a ser um segmento incontornável, a publicidade segue a procura como um rio que corre sempre para jusante. Há cada vez mais muçulmanos na Alemanha, e ainda mais em França, e esse público pesa. O tema não é o Ramadão, é o deserto que ficou quando nós deixámos cair a Quaresma sem barulho.

E em Portugal isto tem peso, porque somos, ou fomos, um país de matriz católica. Enquanto é natural que uma campanha destas nos pareça curiosa, quase como a encenação pública de uma religião que não é a nossa, o que deveria inquietar-nos é outra coisa: por que razão a nossa tradição deixou de ser memória viva? Devíamos falar mais da Quaresma. Não como hábito folclórico, nem como dieta com verniz devoto, mas como escola interior que molda o carácter.

A Quaresma não nasceu para ornamentar a cultura. Nasceu como combate. Quarenta dias de renúncia voluntária para recordar ao homem que ele não é escravo do impulso. Não por particular gosto pelo sofrimento, mas por amor à liberdade. Durante dois milénios, os cristãos procuraram viver estes dias seguindo o exemplo de Cristo no deserto: silêncio, jejum, resistência às tentações mais básicas, oração. Não como performance: como treino. Um modo de ordenar desejos, suportar a demora, sustentar atenção, e aprender a dizer não para que o sim tenha peso.

A Quaresma foi, durante séculos, sinónimo de jejum. Hoje a renúncia mais urgente não é cortar nas mariscadas ou nos doces. É recuperar o domínio dos sentidos. Estar onde estamos. Fazer o........

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