O Tesouro foi, e vai, para o outro lado do Atlântico
Na sexta-feira passada, a SpaceX fez soar o sino do Nasdaq. O maior IPO da história: $75 mil milhões captados a $135 por acção, uma avaliação de $1,77 biliões, mais do dobro do recorde que a Saudi Aramco detinha desde 2019. Ao fim do dia, Elon Musk tinha-se tornado o primeiro trilionário da história. Foi o maior IPO de sempre e uma das maiores operações de PR de que há memória, e na América as duas coisas continuam a andar de mãos dadas. Enquanto isso, deste lado do Atlântico, consolida-se um sistema distinto.
Há, ainda assim, mentes lúcidas a resistir ao deslumbramento, embora talvez estejam a olhar para a parte errada da história. O IPO é apenas uma das fotografias finais de um filme que demorou vinte e quatro anos a ser produzido. Ricardo Valente, professor e colunista do ECO, tem insistido na patologia da indexação passiva, a entrada da SpaceX nos índices Nasdaq e FTSE Russell é obrigada a comprá-la em automático, esteja cara ou barata, sem que ninguém tenha decidido que vale o preço a que está. Helder Pereira, que durante anos foi a alma do Investidor Prudente e que lançou recentemente a MOAT, alerta para os perigos dos IPO em mercados de alta. No próprio dia do lançamento, a acção subiu 18%. É essa euforia de estreia, em que o preço se descola do valor intrínseco, que ele recusa comprar. Têm ambos razão. A avaliação não vem das vendas, vem do chamado múltiplo. A SpaceX perdeu quase $5 mil milhões em 2025 e, mesmo com a Starlink a gerar 61% da receita, o seu volume de negócios é apenas uma fracção dos concorrentes com avaliações semelhantes. O delta que o mercado está a pagar prende-se com a narrativa de inteligência artificial.
De todos os modos, o ponto que merece a pena ponderar é outro. Quem financiou os vinte e quatro anos que tornaram a sexta-feira possível, e quem está agora a colher os frutos. Esse financiamento, fruto de poupanças, não arriscou por........
