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O Homem do Pântano e a ONU que ele merece

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09.04.2026

Havia uma vez um secretário-geral das Nações Unidas que não conseguia controlar o cozinheiro. Não é uma metáfora. É o primeiro facto concreto que o Financial Times registou sobre António Guterres no exercício das suas funções: o salão de jantar privado da ONU serviu um almoço que a jornalista descreveu como uma salada sem sabor, peixe branco insípido e uma tarte pesada. Guterres, com o ar resignado de quem já aceitou que o mundo é assim, limitou-se a pedir desculpa. “Lousy“, disse. “Really lousy“. E não fez mais nada.

A liderança revela-se nos detalhes porque os detalhes são o território onde os princípios se encontram com a realidade. Um chefe que não consegue garantir que os seus convidados comem com dignidade tem duas opções: resolver o problema ou assumir a responsabilidade. Guterres escolheu uma terceira via, aquela que ao longo de décadas se tornou a sua marca registada: reconhecer o problema, lamentá-lo, e não fazer absolutamente nada quanto a ele. Isto seria irrelevante se fosse apenas sobre peixe. Não é.

António Guterres foi primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002. Saiu antes do fim do mandato com o argumento nobre de “evitar o caos político”. O que deixou para trás foi um país a entrar numa recessão que duraria anos e uma dívida pública em rota de colisão, problemas que não desapareceram quando ele saiu pela porta, apenas deixaram de ser problema seu. Em Junho de 2019, com o mesmo espírito, posou para a capa da Time Magazine de fato e gravata, de pé nas águas rasas ao largo de Tuvalu, para uma capa intitulada “O Nosso Planeta a Afundar”. A pose era calculada. Os factos, esses não colaboraram: Paul Kench, Murray Ford e Susan Owen haviam documentado na Nature Communications  que a área total de Tuvalu cresceu quase três por cento entre 1971 e 2014, com oito dos nove atóis a aumentar de dimensão nas últimas quatro décadas. As ameaças reais que o arquipélago enfrenta, a salinização dos aquíferos e a frequência crescente das inundações, mereciam atenção séria. Guterres ofereceu-lhes uma fotografia de fato molhado. Nunca houve imagem mais perfeita de um homem e de uma........

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