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Cada um mata o SNS que ama

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01.06.2026

Perguntaram a uma personagem de Hemingway como tinha ido à falência. “De duas maneiras”, respondeu. “Gradualmente, e depois de repente.” É a melhor descrição que conheço da forma como as instituições públicas se desfazem. Primeiro devagar, em degraus tão pequenos que nos resignamos com um encolher de ombros, sem registar nem protestar. Depois de repente, num colapso que parece súbito só a quem não esteve a contar os degraus. O Serviço Nacional de Saúde está no fim do gradual. Os números do súbito já chegaram.

Em média, quatro médicos abandonam o SNS por dia. Não é estimativa de adversário político nem notícia de jornal em campanha eleitoral. É o número que a Federação Nacional dos Médicos repete há meses e que ninguém no Ministério da Saúde desmente. No último concurso de especialidade, meio ano depois de 1.350 médicos concluírem a sua formação, apenas 400 estavam colocados no SNS. Os outros 950 foram para o privado, para o estrangeiro, ou ficaram à espera de um Estado que se queixa publicamente de ter poucos médicos e ao mesmo tempo não abre os concursos a tempo, altera as regras unilateralmente e oferece contratos com cláusulas ilegais. Portugal formou esses médicos durante mais de uma década, com dinheiro dos impostos de todos. Anunciou em todos os canais que faltam médicos. No acto seguinte, fez tudo para os expulsar: salários abaixo do mercado, condições de trabalho degradantes, uma burocracia que transforma especialistas em dactilógrafos, e chefes escolhidos não pela competência mas pela lealdade ao partido de turno. Não é uma falha de sistema. É uma política de expulsão com resultados à vista.

Para perceber o que uma instituição faz, de pouco serve ouvir o que diz de si própria. Os incentivos que cria dizem tudo o que ela esconde. E os do SNS são precisos na sua perversidade. O médico que saiu do SNS para trabalhar cinco anos no Toronto General Hospital ou no University College Hospital regressa a Portugal e retoma a carreira exactamente onde a deixou, como se os cinco anos não tivessem existido, porque o que conta não é a qualidade da formação mas o tempo de serviço burocrático. As progressões demoram anos, e enquanto a homologação não sai no Diário da República, o médico trabalha no escalão seguinte, mas continua a........

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