"Mais estúpido, só um gajo das esquerdas!"
Há muitos anos, na Versalhes, comentando à mesa do café uma frase infeliz de um conhecido direitista da época, desabafei: “Estes nossos gajos das direitas são muito estúpidos!” E logo o Manuel Maria Múrias, que estava no grupo: “Jaime Nogueira Pinto, mais estúpido que um gajo das direitas, só um gajo das esquerdas!”
A estupidez continua a ser, de facto, uma coisa muito bem distribuída. O que em tempos de ânimos extremados como os que agora correm – tempos em que parecem ser cada vez mais os que não estão para subtilezas nem para distinções entre verdade e ficção e já só reagem a mensagens simplistas e a estímulos fortes – se vai tornando ora cada vez mais caricato, ora cada vez mais grave. Tão caricato como, recentemente, o enfurecido arremesso de fruta podre por anti-fascistas ao actor que fazia de fascista na peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”; tão grave, tão fatalmente grave, como o recente linchamento de Quentin Deranque, a pontapé, por um grupo com excesso de apego à “beleza de matar fascistas”.
Comecemos pelo arremesso de fruta podre
Aconteceu em Bochum, na Renânia-Westfália, quando da exibição da peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.
Na peça, de que já aqui falei por ocasião da sua estreia no D. Maria, uma família do Baleizão tem por tradição raptar e matar um fascista por ano. O discurso de ódio e os seus emissores devem ser definitivamente sancionados regularmente e em beleza. Ora nesta família fictícia, os jovens são iniciados na prática aos 26 anos. Acontece que a jovem Catarina, mostrando-se pouco consciente em matéria de classe e de antifascismo, desafia a tradição, recusando-se a matar o fascista que a família, atenta e carinhosamente, lhe rapta e prepara para o dia da sua iniciação.
Tudo pronto, o fascista já a jeito, e Catarina hesita; até que, num rebate de consciência, sugere o impensável – que apesar da maldade e perversidade intrínseca dos fascistas a prática pode não ser lícita – e comete a imprudência de o poupar. E quando, no final da peça, o fascista em questão faz um discurso típico de um fascista do ano de 2028 (ano em que se desenrola a peça), ou seja, um discurso típico da extrema-direita populista, racista, homofóbica e xenófoba, cantando vitória e falando dos horrores que vai fazer, vem a moral da história, que se quer interrogativa: Catarina foi ou não ingénua? Devia ou não ter quebrado uma tradição tão bela e necessária, poupando o fascista que lhe calhou em sorte?
Foi durante o discurso incendiário do fascista poupado que alguns antifascistas alemães, quiçá mais tradicionalistas, galvanizados pelo título da peça e cegos pela beleza ritual do abate, atacaram com fruta podre o actor que fazia de fascista; espectadores antifascistas tão pouco subtis e tão estúpidos como, ao que parece, eram os fascistas portugueses que, depois do 25 de Abril, se coligaram em “associações de malfeitores” para disfarçar os seus propósitos maléficos e antidemocráticos.
A acreditar em Mateja Koleznik, a directora do grupo teatral, o desgraçado do actor em causa, Ole Lagerpush de seu nome, ficou extremamente “traumatizado com o ataque”, que esperava que viesse do outro lado, dos “fascistas”, e não “dos que deviam estar do nosso lado”.
O mundo é um palco: “Hey fascist, catch!”
“Matar fascistas” foi, para muitos, uma tradição correctiva ou profilática, uma actividade praticada em várias circunstâncias históricas no século passado – em Espanha, no Verão e Outono de 1936, ou em Itália, na Primavera de 1945. Também nos finais da Segunda Guerra Mundial, à medida que avançavam os exércitos soviéticos, se foram matando fascistas, e as mulheres e os filhos dos fascistas, não fosse ficar algum para semente.
Por cá – como, sobretudo desde Salazar, passámos a ser um “país de brandos costumes” – a restauração democrática em 1974-75 não deu espaço à prática da modalidade, a não ser que se considerem fascistas os “colonos” da África Lusófona. E mesmo depois do 28 de Setembro de 74 e do 11 de Março de 75, quando umas centenas de “fascistas” locais foram presos pelo COPCON sob a acusação de pertencerem às tais “associações de malfeitores”, os fuzilamentos que existiram foram fuzilamentos simulados.
Foi talvez essa insuficiência nacional da prática da modalidade que levou um dos nossos compatriotas, distinguido no estrangeiro como director do Festival de Avignon, a escrever a peça “Catarina e a Beleza de Matar Fascistas”.
Dá-se, porém, que a vida real está cheia de espectadores tão ou mais estúpidos do que os que, munidos de fruta podre, assistiam à peça do português. Espectadores paranoicos e pouco subtis, incapazes de interpretar mensagens “interrogativas e complexas” e prontos a entrar em acção para reparar, em beleza, o erro de Catarina.
Vou limitar-me a falar de dois casos, bem recentes e bem públicos: Charles Kirk e Quentin Deranque.
Kirk foi assassinado por um jovem perturbado que se sentiu licenciado para matar, quem sabe seduzido por um difuso conjunto de “mensagens interrogativas e complexas” sobre os odiosos emissores de “discurso de ódio” (um exclusivo da Direita) que ameaçam o mundo, a autodeterminação de género e a democracia. Na mira da sua arma estava, então, a possibilidade de salvar o mundo e a democracia, silenciando um intelectual católico conservador, para ele um fascista, ou pior, um missionário do fascismo. E foi o que fez. E para o fazer em beleza tinha mandado gravar na bala: “Hey fascist catch!”
Mais recentemente, lembro, em França, o assassinato de um “militante de extrema-direita”, Quentin Deranque, por membros de um grupo de “idealistas de esquerda”, chamado Jovem Guarda.
Quentin tinha 23 anos e era conservador e militante nacionalista; era também um católico baptizado aos 14 anos que fizera a primeira comunhão aos 20; um neófito aplicado que convertera os próprios pais e se dedicava à acção social junto dos sem-abrigo de Lyon, que atendia semanalmente. Pouco importa o que fazia ou deixava de fazer, digamos que, para os devidos efeitos, era fascista.
A 12 de Fevereiro, sete raparigas militantes do grupo feminino de direita Nemésis decidiram protestar numa conferência da deputada europeia da France Insoumise, Rima Hassan, no Instituto de Estudos Políticos de Lyon. Quentin e alguns correligionários deslocaram-se para as proteger dos possíveis ataques dos esquerdistas. Quando eles as atacaram efectivamente e os direitistas tentaram interpor-se, foram agredidos por umas dezenas de militantes da Jeune Garde.
A Jeune Garde, Jovem Guarda, é uma milícia fundada em Lyon, em 2018, por Raphael Arnaut e proibida pelo governo em Junho de 2025. É um desses grupos “antifascistas” violentos, braço activista da France Insoumise do radical de esquerda Mélenchon.
Charlie Kirk foi caricaturado depois de morto como homófobo, racista e neo-nazi. Quentin apareceu nos noticiários do Le Monde pintado como um “activista violento de extrema-direita”.
“A parteira da História”
Para a grande maioria dos intelectuais e comentadores, a eventual violência empenhada da Esquerda é sempre mera reacção à violência congénita dos grupos racistas e neonazis da extrema-direita populista, nacionalista, racista, xenófoba, homofóbica e conservadora.
O facto de, historicamente, a Esquerda, no poder ou fora dele, nunca ter hesitado em usar a violência, ou não é referido ou é sempre atribuído à sua proverbial “sede de justiça” e “ânsia por um mundo melhor”: desde o Terror na Revolução Francesa, em que o progresso e a trilogia revolucionária justificaram e santificaram milhares de guilhotinados, de afogados, e o quase genocídio da Vendeia, às matanças, aos campos de concentração e à torturas de milhões de homens e mulheres na Rússia de Lenine e Estaline, na China de Mao, nas repúblicas populares da Europa Oriental, no Camboja de Pol Pot.
No século XIX, Marx e Engels não deixariam de exaltar a violência como “parteira da História”, e Sartre, no prefácio a Les Damnés de la Terre, de Franz Fanon, também não hesitaria em louvar a beleza do abate e da supressão e a sua utilidade para pôr fim à miséria de opressores e oprimidos: “Abattre un Européen c’est faire d’une pierre deux coups, supprimer en même temps un oppresseur et un opprimé.”
Evitando, farisaicamente, falar com esta frontalidade, a actual esquerda radical, com a cumplicidade de outras esquerdas e mesmo de algumas franjas do centrão, continua a proceder, sem escrúpulos, à fascistização, que é como quem diz à desumanização, dos adversários.
A direita e as direitas são sempre autoritárias, iliberais e fascistas, e têm ainda o hábito fatal de estarem sempre a “emitir discurso de ódio”… Só podem ser estúpidas: não percebem que isso é estar mesmo a pedir a fruta pobre, a bala mortal, o linchamento de grupo de algum jovem idealista e desejoso de justiça mais sensível à beleza de matar fascistas e menos capaz de compreender a complexidade e a subtileza das mensagens interrogativas?
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