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Da insegurança física à insegurança cultural

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27.01.2026

Conceito nascido no seio da academia francesa no início dos anos 2000 — mais precisamente na mente do geógrafo Christophe Guilluy, e pouco tempo depois retomado pelo sociólogo Alain Mergier —, a insegurança cultural procura descrever o sentimento de perda de referências culturais que as populações autóctones de um determinado país experimentam face às transformações sociais provocadas por imigrações massivas de pessoas oriundas de culturas profundamente diferentes. Foi o cientista político Laurent Bouvet quem lhe deu uma definição “científica”, permitindo que o conceito se difundisse rapidamente para o resto do Ocidente.

Segundo Laurent Bouvet, embora exista efectivamente uma insegurança económica associada a este fenómeno — uma vez que muitos migrantes aceitam desempenhar os mesmos trabalhos por salários inferiores —, essa dimensão não entra no âmbito da insegurança cultural propriamente dita. Esta está intimamente ligada ao receio que os autóctones sentem perante a possibilidade de verem a sua religião, o seu modo de vida, os seus valores, as suas tradições, normas sociais, a arquitectura, a gastronomia e os seus usos e costumes desaparecerem, sendo substituídos por culturas estrangeiras. Este tipo de medo manifesta-se em todas as sociedades ocidentais que conheceram uma imigração significativa proveniente de países não ocidentais, bem como em sociedades onde o modelo multiculturalista, muitas vezes imposto de forma coerciva pelas elites, deu origem a “choques” identitários e a tensões sociais.

A insegurança cultural tem vindo a aumentar em vários países europeus, sobretudo com a saída dos europeus autóctones de certos bairros onde existe uma forte concentração de estrangeiros. Se o aumento da criminalidade foi um dos factores que levou muitos autóctones a abandonar determinados bairros das grandes cidades da Europa Ocidental, os factores culturais revelam-se igualmente determinantes. Desde a proliferação de mesquitas que, em alguns casos, passam a realizar o chamamento do muezim, às rezas de rua, aos bares de chicha sem álcool, ou ainda à abertura de talhos halal onde não se vende carne de porco, este conjunto de transformações incute numa parte dos autóctones o receio de que o seu país se transforme e se torne irreconhecível. Muitos nem sequer sofrem directamente as consequências da imigração massiva, mas mostram-se preocupados com o futuro.

O fenómeno da insegurança cultural acaba quase sempre por desencadear um forte ressentimento no seio da população relativamente às elites políticas, culturais, económicas e intelectuais, acusadas de não se preocuparem suficientemente com os receios sentidos por uma parte significativa das populações autóctones. Essas elites vivem muitas vezes em bairros seguros, com forte policiamento e guardas privados à entrada dos edifícios, não sentindo na pele as tensões sociais nem as mudanças nos modos de vida, pois habitam, em larga medida, verdadeiras “torres de marfim”. A isto soma-se um certo desprezo pelas massas e uma forma de egoísmo que Christophe Lasch analisou de forma particularmente lúcida na sua obra A Revolta das Elites. Este afastamento das altas burguesias que dominam o Ocidente desde as Revoluções Liberais dos séculos XVIII e XIX, bem como o ressentimento e a desconfiança que daí resultam, ajuda a explicar o ressurgimento de ideologias ditas populistas, anti-elitistas e “anti-burguesas”, tanto à direita como à esquerda, bem como ao surgimento de demagogos.

Será que existe em Portugal uma “insegurança cultural”? Vários sinais indicam que sim. Que melhor exemplo do que o facto de, no seio da população, se manifestar uma certa inquietação cultural ao ponto de os responsáveis políticos considerarem necessário votar uma nova Lei dos Estrangeiros? O simples facto de um colunista do Observador publicar um texto intitulado “Portugal é o país dos portugueses” diz muito sobre a psique colectiva dos portugueses. Receber tantos estrangeiros no país num espaço de tempo tão curto não deixa de ter consequências. Quanto a pequenas frases como a de uma certa eurodeputada do PS, que afirma que Portugal não tem cultura, em nada ajudam; bem pelo contrário, apenas agravam uma situação já de si cada vez mais tensa entre as massas populares e as ditas “elites” políticas.

Que conclusão podemos retirar? A minha é que, se as elites políticas da Europa Ocidental não abordarem já esta questão, e se não tentarem simultaneamente inverter os fluxos migratórios e implementar políticas de incentivo à natalidade entre os jovens europeus, a situação poderá tornar-se muito preocupante. A imigração não é, de facto, o único problema que enfrentamos: existem também desafios ecológicos, económicos e sociais, bem como a agressividade da Turquia e da Rússia nas fronteiras europeias. Além disso, a principal problemática da Europa — e, arrisco dizer, do Ocidente — é a baixa natalidade dos europeus nativos. Uma baixa natalidade aliada a uma forte imigração e a uma elevada taxa de natalidade entre os extra-europeus deveria constituir a principal preocupação dos líderes políticos. “A demografia é o destino”, dizia Auguste Comte — uma lição que, ao que parece, não é ensinada nas Jotas dos diversos partidos europeus.

Muitos europeus nativos sentem que a assimilação não funcionou........

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