Quando o multiculturalismo toca em lâminas
O caso de Henry Nowak, o estudante de 18 anos esfaqueado em Southampton e algemado pela polícia enquanto agonizava no local, não é apenas mais uma tragédia de violência urbana. É um caso‑limite sobre aquilo que as democracias liberais estão dispostas a tolerar em nome do pluralismo cultural e religioso. O homicida, Vickrum Digwa, foi condenado por o ter atacado com uma lâmina de 21 centímetros; a polícia de Hampshire pediu depois desculpa por ter acreditado inicialmente na versão do agressor, que invocara uma alegada agressão racista. Mas, para lá do erro policial, permanece uma questão mais funda: até onde pode ir a acomodação multicultural quando o que está em causa é o porte, em espaço público, de uma arma branca?
A pergunta não é retórica nem ideológica. No Reino Unido, o enquadramento jurídico reconhece uma proteção religiosa para o porte do kirpan, objeto de devoção da tradição Sikh, através de exceções previstas na legislação sobre armas e artigos cortantes. Essa acomodação parte de uma ideia compreensível num Estado liberal: a liberdade religiosa não se esgota na crença interior, abrangendo também práticas externas e símbolos identitários. O problema surge quando o símbolo assume natureza funcional e aptidão lesiva objetiva. A partir daí, a distinção entre expressão religiosa e risco material deixa de poder ser tratada como uma questão meramente cultural — e passa a exigir critérios jurídicos exigentes.
É precisamente neste ponto que o multiculturalismo deixa de ser uma teoria simpática e se transforma num teste de realismo político. Uma sociedade plural deve proteger........
