Inventar um Chega para 1976
No fim-de-semana passado, o Jornal de Notícias resolveu regressar ao homicídio do Padre Max com uma daquelas manchetes que, sozinhas, já fazem o serviço todo: “Mercenários ligados ao CDS contratados para matar padre Max há 50 anos”. O problema é que o texto do artigo não demonstra o que o título promete. Em vez disso, serve-se uma sopa requentada feita das mesmas confissões tardias, dos mesmos nomes conhecidos, das mesmas relações circunstanciais e de uma palavra mágica, dessas que dão imenso jeito ao jornalismo engajado: “ligados”.
“Ligar” é um verbo prodigioso. Serve para sugerir uma relação politicamente comprometedora sem o trabalho de ter de a demonstrar. E, sem demonstrar, alcança o que pretende, confundindo o passado e injectando no presente uma associação conveniente. Quem lê fica com a ideia de que o CDS traz nas suas fundações uma sombra terrorista equiparável ao boneco doutrinário que a imprensa de esquerda (isto é, todas as redacções, de todos os jornais) se entretém diariamente a propósito do Chega.
É este o ponto. Não é apenas mau jornalismo. Estamos perante uma necessidade de época. Já não basta implicar o Chega com tudo o que mexe, como se cada soco de rua, cada imbecilidade do Telegram e cada tatuagem mal feita de um........
