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Vale a pena ir às aulas? Vale.

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02.06.2026

Há uma pergunta que parece simples, mas que toca o nervo central da universidade contemporânea: vale a pena ir às aulas? A resposta, na minha opinião, é clara: vale. Não porque todas as aulas sejam memoráveis, nem porque todos os professores sejam brilhantes em todos os dias. Vale porque a universidade não é apenas um repositório de conteúdos. É uma comunidade de pensamento, uma rede de encontros, um laboratório de hesitações, erros, perguntas e descobertas.

O Moodle guarda ficheiros, o YouTube guarda vídeos, os chatbots de inteligência artificial (ChatGPT, Claude, Gemini, entre outros) ajudam a explicar conceitos. Mas nenhum deles substitui por completo a experiência de estar diante de outros, de ouvir uma dúvida que não era nossa, de ver um professor desmontar um problema em tempo real, de perceber que aprender é também suportar a demora, a dificuldade e a presença.

A ausência tornou-se barata, mas o seu custo continua caro, apenas se tornou menos visível.

A questão que, depois de mais de 30 anos de experiência universitária, tenho colocado, mais este ano letivo que se aproxima do seu final, é: Porque é que os estudantes estão a deixar de frequentar as aulas?

Os dados recentes confirmam que não se trata apenas de uma perceção, mas de uma realidade. Como prova o relatório da HEPI, publicado em maio de 2026, no Reino Unido, a proporção de estudantes que dizem frequentar todas as aulas caiu de 63% em 2006 para 48% em 2025. O mesmo relatório indica que as horas de ensino perdidas duplicaram: de cerca de 8% do horário em 2006 para 16% em 2025. Em média, os estudantes perdiam cerca de uma hora semanal em 2006; em 2025, perdiam 2,4 horas por semana. Entre aqueles que faltavam a alguma aula, a média subia para 5 horas semanais perdidas.

A primeira explicação e, talvez a mais imediata, é tecnológica. Antigamente, faltar a uma aula exigia uma pequena logística de sobrevivência académica: pedir apontamentos, fotocopiar cadernos, reconstruir o fio perdido. Hoje, grande parte desse esforço desapareceu. Diapositivos, gravações, fóruns, grupos de mensagens, vídeos, resumos automáticos e chatbots de IA reduzem drasticamente o custo imediato da ausência. O estudante não sente que perdeu a aula, sente que a transferiu para outro momento. O problema é que, muitas vezes, esse “outro momento” nunca chega com a mesma intensidade, nem com a mesma qualidade cognitiva.

A segunda explicação é cultural. A pandemia normalizou uma relação mais flexível, fragmentada e negociada com o ensino. A aula gravada, a sessão remota, o acompanhamento assíncrono e o estudo por recursos digitais trouxeram vantagens reais, tais como a inclusão, a acessibilidade, o apoio a quem trabalha, a quem está doente ou a quem vive longe. Seria absurdo negar esse progresso. Contudo, o problema surge quando o complemento passa a substituto e quando a aula presencial é percebida como uma versão menos cómoda de algo que se pode consumir mais tarde.

Há ainda um terceiro motivo: a aula passou a ser julgada, por alguns estudantes, pela lógica do consumo. Se é lenta, parece fraca. Se exige concentração prolongada, parece antiquada. Se não oferece estímulos contínuos, parece desinteressante. O professor é então empurrado para uma figura ambígua, onde deve ensinar, mas também prender a atenção, deve exigir, mas sem causar desconforto, deve aprofundar, mas sem abrandar, deve formar, mas sem contrariar a expectativa de entretenimento.

Ora, ensinar não é entreter! Sempre recusei, recuso e continuarei a recusar esta nova abordagem de transformar uma aula numa atividade de entretenimento. Uma boa aula pode ser viva, clara, dialogante e bem desenhada. Deve sê-lo, mas há aprendizagens que pedem silêncio, demora, repetição e, fundamentalmente, resistência, porque a atividade de aprender custa é dolorosa, exigem........

© Observador