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A inteligência fora do crânio e o regresso ao humano

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Durante décadas, a sociedade confundiu competência com perícia técnica. Saber programar, calcular, operar máquinas, dominar procedimentos, escrever relatórios, interpretar normas: tudo isto formava o conjunto das hard skills. Quem sabia fazer, valia. Quem sabia medir, subia. Quem sabia executar, permanecia. Mas a história do trabalho nunca foi imóvel e a tecnologia deslocou o centro do valor humano.

A primeira grande mudança foi clara, os computadores passaram a substituir tarefas rotineiras, tanto cognitivas como manuais, e a complementar tarefas não rotineiras, como a resolução de problemas complexos e a comunicação. Essa leitura, já presente no trabalho, ajudou a explicar por que razão a simples capacidade de executar instruções deixou de bastar. O trabalhador deixou de valer apenas pelo que sabia repetir e começou a valer pelo que sabia interpretar, adaptar, relacionar e decidir.

Depois veio a era das soft skills. Durante algum tempo, o nome enganou-nos. Chamámos “suaves” a competências duríssimas: comunicar bem, cooperar, liderar, escutar, negociar, resolver conflitos, manter serenidade sob pressão. David Deming mostrou que, entre 1980 e 2012, os empregos que exigiam elevados níveis de interação social cresceram quase 12 pontos percentuais na força de trabalho norte-americana, enquanto empregos intensivos em matemática, mas menos sociais diminuíram 3,3 pontos percentuais. O mercado começou a recompensar a capacidade de trabalhar com outros.

Agora entramos numa terceira estação, a das heart skills. Não se trata de substituir as competências técnicas nem de romantizar a bondade como ornamento moral. Trata-se de reconhecer que, num mundo onde a inteligência artificial escreve, resume, calcula, traduz, programa e recomenda, o que se torna escasso é precisamente aquilo que não se deixa reduzir a cálculo, como a empatia, a generosidade, o cuidado, a simpatia, a presença, a escuta ativa e a responsabilidade emocional. A OCDE descreve as competências sociais e emocionais, como autocontrolo, resistência ao stress, cooperação, sociabilidade e curiosidade, como capacidades associadas ao bem-estar, ao desempenho académico e ao desempenho profissional. Mais ainda, a OCDE sublinha que, à medida que a IA ultrapassa os humanos em várias capacidades cognitivas, estas competências se tornam uma vantagem decisiva em tarefas que as máquinas não realizam plenamente.

A palavra “coração” pode parecer excessiva num relatório empresarial. Mas talvez seja apenas tardia. O Fórum Económico Mundial indica que........

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